maio 26th, 2011

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Software livre não nasce em árvores: Do colonialismo ao extrativismo digital – Por Jomar Silva

quinta-feira, maio 26th, 2011

Sei que muita gente que conheço e admiro vai ficar irritada com este artigo, mas acredito que já atingimos um nível de maturidade suficiente na comunidade de software livre brasileira para que possamos encarar de frente nossos próprios fantasmas. Sei também que o artigo é longo, mas acho que vale a pena a leitura. Cedo ou tarde vamos precisar fazer a reflexão aqui proposta.

Optei por escrever este artigo junto com um grupo de amigos experientes dentro da comunidade para evitar que ele seja classificado como sendo a opinião de uma única pessoa. Todos os amigos convidados já estão há bastante tempo na comunidade de software livre e todos eles já sentiram na pele os efeitos dos problemas aqui relatados. Optei por não listar seus nomes neste artigo, para que eles mesmo possam fazê-lo nos comentários.

Depois de tantos anos militando e trabalhando com software livre, fico impressionado em ver como as pessoas comumente usam o termo “a comunidade” como se ela fosse uma empresa ou coisa parecida. Muitas vezes vejo as pessoas falando da comunidade como se não fossem parte dela, como se não tivessem nenhuma obrigação em relação à manutenção dos projetos desenvolvidos de forma comunitária. Muita gente entende que ser usuário de redes sociais organizadas em torno de projetos de software livre seja o mesmo que ser membro de fato da comunidade do projeto em questão, além de acreditar piamente que todos naquela comunidade estão mesmo interessados em trollagens e críticas despropositadas.

Fazendo uma breve revisão do que aconteceu nos últimos anos na área de tecnologia no Brasil, vemos que nossa indústria de informática foi praticamente destruída no início dos anos 90, e passamos quase duas décadas sendo meros consumidores de tecnologia da informação, do hardware ao software. É a isso que chamo de colonialismo digital, pois tal como na época do Brasil colônia, acabamos consumindo tudo aquilo que os colonizadores nos empurravam. Vale lembrar aqui, que durante o início do século XIX, o Brasil chegou a “importar” um navio de patins para patinação no gelo da Inglaterra, uma vez que estes produtos estavam entupindo os estoques ingleses e precisavam ser desovados em algum lugar. Os historiadores contam que nesta época, as lâminas dos patins acabaram sendo utilizadas como facas e facões e assim fomos levando a vida: dando o jeitinho brasileiro para cumprir com nosso papel de colônia.

Durante quase vinte anos, fizemos a mesma coisa com produtos de tecnologia da informação e me lembro de ter presenciado algumas aberrações nesta época. De computadores que não suportavam o calor tropical brasileiro a softwares que invertiam completamente nossa lógica organizacional, vivemos décadas “dando um jeitinho” para as coisas funcionarem e não foram raros os casos em que tivemos que nos re-organizar para que pudéssemos utilizar as tecnologias “ofertadas”. Quem aí nunca encontrou um banco de dados armazenado dentro de uma planilha com milhares de linhas ou não viu uma reengenharia quase irracional acontecer na marra por conta do ERP da moda que atire a primeira pedra.

Tamanha foi nossa aceitação do papel de colonizados, que no final da década de 90 não era raro encontrar universidades que ao invés de lecionar “Sistemas Operacionais”, lecionavam “Windows NT”, ou trocavam “Banco de Dados Relacionais” por “Oracle” ou “DB2” e por aí seguia a carruagem. Fui aluno em uma dessas (que aliás é uma universidade de renome e destaque em São Paulo). Me lembro que fui voto vencido quando fui debater este assunto com a coordenação do curso, pois para eles importava ensinar “o que o mercado cobrava”. Pior do que ser voto vencido entre os coordenadores e mestres do curso, foi ter sido voto vencido entre meus colegas de turma, pois a imensa maioria deles estava tão acostumada com o fato de ter tudo mastigado nas mãos, que não se importava em não dominar de fato a tecnologia ou entender o que acontecia debaixo do capô. Estavam mais preocupados em “colocar no curriculum” o que aprenderam na faculdade. Amém !

Foi assim que formamos no Brasil centenas de milhares de profissionais de TI que não passavam de usuários avançados de ferramentas de software desenvolvidas fora do Brasil. Hoje, uma parte considerável destes profissionais são gestores de TI em diversas empresas públicas e privadas, e isso explica o principal motivo da resistência que encontramos no nosso dia a dia ao Software Livre dentro das organizações: a zona de conforto é grande e a inércia gerada por ela é muito difícil de ser quebrada.

É evidente que este modelo interessa às grandes empresas multinacionais de software, e confesso que hoje chego a achar graça das explicações dadas a eles sobre “o modelo”. Sempre que questionadas publicamente sobre este tema, vemos as empresas se defendendo com o argumento de que geram milhares de empregos diretos e indiretos no Brasil, e que fazem “transferência de tecnologia” à indústria local, principalmente através de seus parceiros e de projetos junto à universidades.

O que vemos na prática é que a imensa maioria dos empregos diretos criados por estas empresas estão focados na área comercial e nas metas de curto prazo, e que os empregos “técnicos” costumam se concentrar em seus parceiros e solution providers, que evidentemente não têm acesso às informações detalhadas, e muito menos ao código fonte, dos produtos que “suportam” no mercado. A segurança e confiança por obscuridade é o que impera nesta seara.

Quando olhamos o trabalho feito por elas junto às universidades, vemos novamente que o foco é sim formar cada vez mais usuários avançados de seus produtos, e conseguir com isso firmar a dependência tecnológica desde na base da cadeia alimentar na indústria de TI. É muito fácil comprovar isso quando vemos “versões educacionais” dos softwares comercializados por estas empresas serem distribuídos com água dentro das universidades. Encerrou o curso e tem um software completo desenvolvido: ótimo… vamos lhe enviar a fatura em 3, 2, 1…

É importante lembrar que este modus operandi não é exclusividade de uma única empresa, mas é de fato a prática de mercado de todas as multinacionais de TI (das mais fechadas e perseguidas por todos até a “mais aberta” e idolatrada pela maioria).

Foi num cenário de total colonização tecnológica como o ilustrado acima que o Software Livre cresceu no Brasil, principalmente durante os últimos 10 anos. Eu atribuo este crescimento à vontade gigantesca de conhecer tecnologia de verdade que alguns profissionais de TI no Brasil tinham, mas conforme o movimento foi crescendo, tenho a impressão de que estes profissionais cada vez mais são raros de se encontrar e o que vemos de fato hoje, é a busca pela substituição pura e simples de um software proprietário por um equivalente livre (e não quero entrar aqui na discussão filosófica por trás disso).

Considero que seja fundamental termos no Brasil uma comunidade tão militante e ativa na publicidade e no suporte às soluções de software livre, mas infelizmente isso não é suficiente, pois deixamos de ser colonizados digitais e somos hoje extrativistas digitais.

Não exagero em dizer que hoje o Brasil tem em números absolutos a maior comunidade de usuários de Software Livre do mundo, e olha que a TI ainda não chegou a tantos lares assim no Brasil, portanto temos ainda muito a crescer. O que me deixa muito chateado é constatar que ao mesmo tempo, temos uma comunidade de desenvolvedores de software livre quase inexistente (eu mesmo conto nos dedos das mãos os desenvolvedores de “código fonte” em projetos de software livre que conheço). A dita “comunidade” é a primeira a se manifestar e apontar defeitos nos muitos projetos que “participam”, mas na hora de enviar contribuições realmente significativas quase ninguém aparece.

É por isso que afirmo que vivemos hoje o extrativismo digital: encontramos uma fonte aparentemente inesgotável de recursos e estamos usando e abusando dela, sem nos preocupar com a sua manutenção. Isso pode até nos dar uma sensação de liberdade e controle do próprio nariz bem confortável, mas não nos levará a lugar algum e pior do que isso, quando a fonte se esgotar (e sim, ela pode se esgotar um dia), voltaremos à nossa vidinha de colonizados, e seremos novamente saudosistas de uma “era de ouro”, tal como nossos amigos mais velhos hoje se lembram da reserva de mercado.

O que quero com este artigo é forçar uma reflexão dentro da nossa comunidade, pois é evidente que software livre não nasce em árvores, e existem pessoas trabalhando muito escrevendo código fonte por trás dos softwares livres que utilizamos no dia a dia.

Devo reconhecer porém, que somos muito ágeis e experientes em traduzir estes softwares para nosso idioma, mas todos devem concordar comigo que isso é o mínimo do mínimo que podemos fazer. Lembre-se de que teremos alcançado o sucesso pleno quando a tradução for problema dos outros !

Não consigo me contentar com isso e por isso peço a todos que façam uma séria reflexão: Quando foi a última vez que você contribuiu de verdade com um projeto de Software Livre ?

Rodando o mundo palestrando em eventos de software livre, esta é a diferença primordial que vejo entre outros países e o Brasil. Na maioria dos países, a meritocracia funciona de verdade e o reconhecimento vem na base de muito, mas muito código fonte contribuído para os projetos. Como já contei a diversos amigos, em muitos países fora do Brasil, para que você possa “tomar uma cerveja” com os líderes dos projetos de software livre, você provavelmente já trabalhou bastante construindo e depurando código com eles.

Acho que é parte da cultura latina ser expansivo, mas não podemos deixar que nossa ânsia por fazer amigos acabe os deixando desviar tanto assim do nosso objetivo comum: Desenvolver de fato softwares livres que supram as necessidades de nosso mercado, que nos permitam dominar a tecnologia e que paguem nossas contas no final do mês.

Quando analisamos a cadeia de valor na indústria de software livre no Brasil hoje, vemos que diversos nós da cadeia são remunerados, mas que ainda não encontramos uma forma concreta de remunerar de verdade o principal nó: O desenvolvedor.

É muito fácil cair no discurso de que “quem implementa, treina e suporta também desenvolve”, mas na prática vemos o oposto disso.

O que me consola é que este problema não é exclusividade nossa, e nos últimos meses tenho visto diversos projetos de software livre desenvolvidos internacionalmente passar por sérias dificuldades por conta do mesmo problema.

Voltando ao Brasil, conheço ao menos um software livre desenvolvido aqui no Brasil e que é utilizado no país todo, além de ser suportado por centenas de empresas, mas que tem como desenvolvedores ativos apenas duas pessoas, sendo que uma delas (e talvez o desenvolvedor chave), não seja de forma alguma remunerado. Não vou dizer o nome do software aqui para não ser deselegante com as pessoas envolvidas em seu ecossistema, mas garanto que pela descrição acima você já deve ter identificado alguns softwares como potenciais candidatos.

Em uma recente discussão que tive com um dos pioneiros do Open Source mundial, ele me dizia que o modelo de subscrição nunca foi de fato compreendido pelo mercado, e concordo com ele que este modelo é o mínimo que podemos ter para garantir a manutenção dos projetos e de seus desenvolvedores. É mesmo uma pena ver que muita gente afirmar sem vergonha alguma que “subscrição é licença disfarçada”, e aqui incluo inúmeros colegas do movimento do software livre. Sinto lhes informar que não, não é, mas concordo que é muito fácil pensar assim quando seu contracheque chega no final de todo mês.

Indo mais a fundo no problema, fico extremamente chateado em ver a falta de consciência de inúmeros gestores de empresas públicas e privadas que economizam centenas de milhões de reais por ano em licenças de software, mas que não investem sequer um centavo no desenvolvimento e manutenção de projetos de software livre que utilizam no seu dia a dia.

Um exemplo gritante do que afirmo acima é o Libre Office (antigo OpenOffice ou BrOffice no Brasil), que possui atualmente centenas de milhares de cópias sendo utilizadas no país todo, economizando rios de dinheiro, e que têm no Brasil uma comunidade de “desenvolvedores de verdade” quase irrisória. O que me deixa muito mais chateado com isso, é que estes poucos heróis nacionais quase sempre levam uma vida de privações em prol da coletividade e tudo o que recebem de volta são tapinhas nas costas e nos últimos tempos ainda tem que aceitar calados, críticas injustas vindas de todas as partes. Não vou nem comentar aqui sobre a vida que levam os que decidem trabalhar com o desenvolvimento de padrões, mas posso afirmar que invejamos a vida dos desenvolvedores de software livre no Brasil.

Não quero que este seja um artigo de lamentações, e por isso eu gostaria de deixar algumas sugestões para que possamos de fato aproveitar esta oportunidade que temos nas mãos e mudar de uma vez por toda a história da TI no nosso Brasil. Muitas das sugestões vão parecer óbvias e genéricas, mas acredite, nunca foram de fato implementadas:

  • Empresas que utilizam softwares livres deveriam ter desenvolvedores trabalhando no desenvolvimento destas soluções ou se não puderem ter estes desenvolvedores, que exijam que as empresas que lhes prestam serviços de suporte e treinamento em software livre tenham desenvolvedores ativos nos projetos, e que comprovem suas contribuições periodicamente. Esta prestação de contas aliás deveria ser pública.
  • Universidades poderiam deixar de usar exemplos genéricos e trabalhos “inventados pelos professores” nas disciplinas de desenvolvimento de software e ter como meta a cada semestre otimizar um trecho de código fonte existente ou implementar uma melhoria ou nova funcionalidade em um software livre existente. O mesmo vale para outras disciplinas como marketing e design. Uma simples mudança da atitude como esta daria aos envolvidos uma experiência prática no mundo real com projetos concretos, ao mesmo tempo que lhes permitiria alcançar os mesmos objetivos didáticos (já imaginou onde chegaríamos com isso ?).
  • Já temos diversas leis, decretos e instruções normativas no Brasil recomendando ou determinando a utilização de Software Livre e de Padrões Abertos em diversas esferas governamentais, mas infelizmente os órgãos de controle e fiscalização parecem desconhecê-las. Não consigo avaliar quem é o culpado por isso, mas sei que nós como sociedade temos o dever de cobrá-los, e talvez esteja aí a grande missão de todos os membros da comunidade que não podem contribuir de forma técnica com os projetos de software livre.
  • Muita gente não tem conhecimento técnico para escrever código fonte e contribuir com os projetos, mas lembre-se que um software livre de sucesso não vive só de código fonte e por isso mesmo sempre existe algo não relacionado a código fonte que precisa ser feito. Se envolva de verdade com a comunidade de desenvolvedores dos softwares que você usa e por favor, contribua de forma concreta com seu desenvolvimento. Ajudar de verdade é atender a necessidade do outro e não a sua própria necessidade. A diferença entre o voluntariado e o voluntarismo é gigantesca, mas muito difícil de ser compreendida.

Não acredito em contos de fadas e também não acredito que um dia uma empresa estrangeira vai decidir do dia para a noite que o Brasil é a bola da vez para concentrar aqui o seu desenvolvimento de software. Temos que conquistar isso, temos que fazê-lo do nosso jeito e temos sim potencial para reconstruir de verdade nossa indústria nacional de software e Tecnologia da Informação. O que não podemos fazer é ficar aqui sentados esperando o milagre acontecer, imaginando que estamos no caminho certo. Pequenas correções de rota podem sim nos levar a algum lugar completamente diferente e melhor do que o nosso destino atual.

Caso você ou sua empresa queira contribuir com um projeto de software livre e não saiba como, me coloco à disposição para ajudar e orientar.

Peço que reflitam sobre o seu papel na solução do problema aqui apresentado. Temos um elefante na sala e só não ver quem não quer.

Aguardo ansiosamente os comentários e espero que possamos abrir este debate tão necessário nos dias de hoje.

Escrito por Jomar Silva(@homembit) em 26 maio 2011

FONTE: TREZENTOS

José de Abreu: “A politização dos indivíduos na rede está acima dos partidos e dos governos”

quinta-feira, maio 26th, 2011

Ramiro Furquim/Sul21

Rachel Duarte

Jovem militante nos tempos da ditadura militar, gaúcho por adoção, ator global há 30 anos e um influente ativista da internet, José de Abreu prestigiou o lançamento do Gabinete Digital de Tarso Genro nesta terça-feira (24) e, ao final do evento, conversou com o Sul21. Ele falou sobre sua relação com a política e a militância assumida no Partido dos Trabalhadores (PT).

Petista tradicional desde 1989, o ator de 65 anos tornou-se atração no Twitter durante as eleições de 2010 pelo desempenho em favor do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e pela eleição de Dilma Rousseff. Com mais de 12 mil seguidores na rede social, ele analisou o poder da web para o exercício da democracia. Para José de Abreu, ao contrário do que dizem alguns críticos, a internet é um meio de politização e tem um poder fundamental nas relações sociais e políticas na era da globalização.

Trabalhando na novela Insensato Coração, Abreu acredita que as concessões das grandes emissoras brasileiras estão ameaçadas com a expansão das mídias digitais e não deixou de citar a decadência das redes brasileiras de TV e mesmo da Rede Globo diante do crescimento das empresas de telecomunicações estrangeiras no Brasil.

Sul21 – O senhor já foi preso por perseguição política durante o período de exceção e buscou refúgio no Rio Grande do Sul. Por viver aqui, em Pelotas, o senhor disse que adotou a cidade e não esconde o título de Cidadão Pelotense.

José de Abreu (JA) – Fui preso por dois meses, em 1968, durante o congresso na UNE (União Nacional dos Estudantes). Saí do país no final de 1972, quando tive um exílio forçado na Holanda, e voltei no final do ano seguinte para Pelotas (RS). Eu escolhi o Rio Grande do Sul porque era bem perto do Uruguai, qualquer coisa era fácil de escapar bem rápido. (risos) E, quando eu recebi o título de Cidadão Pelotense, o presidente da Câmara de Vereadores disse que estava me concedendo o título ciente de que eu não iria assumi-lo… Mas eu tenho orgulho de dizer que sou de Pelotas, apesar de isso ser motivo de piada. Meus dois filhos são bem machos inclusive, a filha um pouco menos. (risos)

Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Qual a razão da sua vinda ao RS para o lançamento do Gabinete Digital de Tarso Genro? Motivação ideológica?

JA – Não. Ele ficou surpreso quando me viu aqui. Eu vim sem o governador saber que viria. A minha vinda aqui foi pelo meu ativismo na internet. Aqui, o governo gaúcho compreendeu o avanço da cultura digital no mundo, potencializada no Brasil com o governo Lula. No governo Lula, o Ministério da Cultura foi aberto para os cidadãos e poderíamos ser os primeiros do mundo em liberdade digital, se o governo Dilma compreendesse isso. Agora existe uma mudança neste sentido. Mas, eu tenho uma esperança que o governo federal mude isso. Se não acontecer, nós vamos para a rua.

Sul – Qual é a sua crítica?

JA – Eu sou um interneteiro antigo, entrei no BBS na década de 90. Na campanha de 1995 eu tinha um blog muito ativo e tive que abandoná-lo porque fui processado várias vezes. A impressão que eu tenho é que a presidenta Dilma Rousseff não sabia o que estava acontecendo em termos de cultura digital quando nomeou a Ana (Ana de Hollanda, atual Ministra da Cultura). O trabalho que havia sido feito no governo Lula foi completamente ignorado. O Ministério da Cultura tinha virado um acampamento virtual, do qual os usuários se empoderaram.

Sul21 – Qual a importância da internet para o exercício da democracia e como o senhor avalia o comportamento do Brasil com revolução das mídias digitais?

JA – A mídia digital está tomando conta. As pessoas estão impondo outro modo de governança.

Há uma politização dos indivíduos na rede nunca vista no mundo e que está acima dos partidos e dos governos.

E, se os partidos ou governos não se antenarem serão levados de roldão. Quando eles menos esperarem terá uma multidão na porta pedindo mudanças e eles, se não acompanham os debates na internet, não saberão nem que mudanças que as pessoas querem.

Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Vários movimentos de protesto no mundo estão sendo organizados com o uso das redes sociais da internet. Qual o significado desse fenômeno que está mudando as relações sociais, políticas, culturais e econômicas no século 21?

JA – A internet significa para o mundo uma nova forma de democracia direta. Desde Atenas (Grécia) não tínhamos algo tão aberto. Os governos e nós mesmos ainda estamos nos apropriando desta ferramenta e entendendo o poder que temos nas mãos. Eu ainda levo um susto no momento em que estou fazendo uma twitcam e segundos depois o Lula me liga, na condição de presidente ou ex-presidente da República. Então eu começo a me dar conta que o que eu faço tem certo poder. Mas eu fui criando a minha rede de seguidores sem me dar conta disso. Agora, as pessoas que seguem buscam conteúdo. É outro tipo de seguidor. Eu falo só de política. Mas os governos têm que ter este estalo.

O gabinete digital gaúcho irá sentir este poder com a criação desta ferramenta. Outros governadores também já se anteciparam, o Déda está fazendo isso em Aracaju, no Ceará o Cid Gomes também está fazendo. Se a Dilma não se der conta ela pode ser surpreendida com uma maré de pessoas pedindo liberdade. Liberdade de quê? Ela nem saberá…

Sul21 – Para o real exercício da democracia com as mídias digitais é preciso que todos possam ter acesso à internet. Qual a sua opinião sobre o Plano Nacional de Banda Larga que está sendo gerido e debatido no Brasil?

JA – Eu não acho que a Lei dos Medios (inspirada na Ley de Medios da Argentina que cria mecanismos para combater a concentração midiática do país), que defendem alguns ativistas como o Paulo Henrique Amorim, seja a melhor alternativa para o Brasil. Ela pega apenas rádios e televisões, não pega jornal, por exemplo. A programação de uma emissora de TV, seja a RBS ou a Record aqui no RS, só tem 10% de jornalismo. A Ley de Medios só funcionaria também para as emissoras outorgadas, com concessão. Com a chegada da internet já está havendo um impacto nas emissoras. A rede é ilimitada. Tu pode ter dois canais um em cima do outro. O mesmo com as TVs a cabo e o sinal das parabólicas. As concessões irão acabar…

Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – O senhor está sendo otimista, porque este debate da regulação dos meios é muito velado e há um grande monopólio constituído.

JA – As grandes oligarquias são grandes só no Brasil. Mas, com a chegada das teles estrangeiras a Globo e a Record ficaram pequenas. O mundo digital engole estas emissoras. Quem é a Globo perto da Google?

A Globo é um pintinho perto da Google, da Tim, da Telefônica da Espanha ou da Telecom de Portugal.

A diferença no faturamento é absurda da Globo (R$ 28 bi) em comparação com as teles estrangeiras (R$ 180 bi). Agora, eu acho que é importante ter banda larga para todo mundo. Uma grande rede mundial para conectar todos em wi-fi seria maravilhosa. No RJ toda a praia tem wi-fi.

FONTE