novembro, 2011

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Como foi a LinuxCon Brasil 2011

segunda-feira, novembro 21st, 2011

maior evento de software livre da América Latina aconteceu nos dias 17 e 18 de novembro, e contou com a presença dos ilustres Linus Torvalds e John Maddog Hallfalando sobre os 20 anos do Linux, diversas palestras para os mais variados grupos de profissionais e interessados na filosofia Open Source — além de muitas novidades para os fãs do pinguim.

Primeiramente, é interessante notar que, comparando com a LinuxCon do ano passado, o evento desse ano parecia menor, com menos participantes. Pode ser só impressão (já que o espaço escolhido esse ano é bem maior) ou até mesmo a data escolhida que não foi muito favorável (perto do período de provas e logo depois de um feriado, afastando estudantes e talvez até funcionários de TI). Outra particularidade do evento foi perceber que a presença deexecutivos e profissionais era bem maior que o normal.

Maddog e Linus Torvalds na LinuxCon Brasil 2011

Abrindo o evento, Linus Torvalds e John “Maddog” Hall fizeram um bate-papo rápido, respondendo perguntas e comentando sobre os 20 anos do Linux, além de como eles veem a importância do software livre no Brasil. John foi enfático ao falar de como o código aberto pode ser importante para países em desenvolvimento:

“O software livre permite o desenvolvimento nacional, o profissional não precisa sair do pais ou apelar para soluções internacionais que beneficiarão empresas de fora do país. O dinheiro e o conhecimento que ele gera fica no país, não importa se é real, dólar, ou outra moeda.” — John Maddog Hall

Já Linus não poupou comentários às tecnologias fechadas e como elas afetam o mercado:

“Tecnologias que ‘travam’ coisas tendem a perder no final das contas. Quando a Apple lançou o iPod e começou a usar DRM em músicas, todos temiam que o mp3 morreria. E hoje vemos que não é isso o que aconteceu. As pessoas querem liberdade (mesmo que elas não tenham noção disso) e o mercado precisa de liberade para crescer”.

Ainda nesse tópico, Linus tem uma opinião simples sobre a polêmica envolvendo o Secure Boot da Microsoft:

“Eu sou um cara bem otimista: dados abertos serão bem sucedidos no final das contas, e o boot seguro é apenas outra dessas modas passageiras.”

Encerrando, ao ser perguntado sobre como ele vê o Linux depois de 20 anos e se ele já se surpreendeu vendo o sistema que ele criou sendo usado em soluções pouco convencionais, Linus foi bem enfático:

“Originalmente, eu queria usar o Linux no meu desktop. É interessante ver outras pessoas usando não só como o desktop deles, mas em diversos outras soluções, como geladeiras. Nada mais me surpreende nesse ponto.”

Após a tietagem básica dos fãs, o ciclo de palestras começou. Focando principalmente em tecnologias de cloud computing, aplicações open source para empresas e Android, havia palestras para todos os gostos e níveis, desde o estudante fã de código até o executivo fã de gráficos e tabelas.

Destaca-se principalmente a apresentação “GNOME 3 – An improved UX from 3.0 to 3.x” que (milagre dos milagres) me convenceu a dar mais uma chance para o GNOME 3.

Na área de estandes, muitas empresas apresentavam seus produtos e soluções baseadas em software livre, em especial o Mandriva, que inclusive mostrava o computador usado no programa “Um computador por Aluno” do governo, um notebook Positivo com um KDE simplificado para os estudantes.

LinuxCon aconteceu em São Paulo

No final, foi um bom evento, com boas apresentações e conteúdo interessante, e aposição do Brasil como uma potênciaque pode se beneficiar da economia e qualidade do software livre foi ressaltada diversas vezes. Como evento para conhecer novas tecnologias e possibilidades, além de gerar idéias para projetos pessoais e profissionais, o Linuxcon é ótimo.

FONTE

Linus Torvalds critica Microsoft e Apple e diz que plataformas abertas vencerão

segunda-feira, novembro 21st, 2011

Linus Torvalds

Linus Torvalds, criador do Linux, acredita que tecnologias fechadas, como as da Apple, vão perder para as abertas ao longo do tempo.

Torvalds esteve na LinuxCon, em São Paulo, e criticou a política da Apple de restringir o uso de suas tecnologias por outras empresas. “Pessoas querem liberdade e mercados querem liberdade”, afirmou. Ele é um dos grandes entusiastas do código aberto, como o usado no sistema operacional que criou. “Estou otimista: a abertura vai se dar melhor a longo prazo”, afirmou.

As críticas de Torvalds à Apple têm um significado especial no Brasil. A empresa fundada por Steve Jobs não se adaptou à legislação brasileira e é considerada uma das mais fechadas do mundo. Representantes da Apple se recusaram a discutir questões relacionadas à inclusão de jogos na iTunes Store nacional, por exemplo, e resolveram a questão de uma maneira simples: não disponibilizam nenhum game para os donos brasileiros de iPhone.A Microsoft também foi alvo de Torvalds. Ele criticou a decisão feita pela empresa de dificultar a instalação do Linux em computadores vendidos com Windows 8. Para o criador da plataforma aberta, a medida não vai dar certo. “Vai ser mais uma dessas modas passageiras”, afirmou.

Lançada edição n.31 da Revista Espírito Livre!

terça-feira, novembro 15th, 2011
Revista Espírito Livre - Ed. #031 - Outubro 2011

Revista Espírito Livre - Ed. n #031 - Outubro 2011
Revista Espírito Livre - Ed. n #031 - Outubro 2011

Robôs. Eles sempre fascinam a maior parte de nós, humanos. E a construção destes seres não pensantes (será?!) nos dá o gostinho de brincar de Deus, o que para muitos pode ser o princípio do fim e para outros apenas evolução e ciência. Na maioria dos filmes de ficção científica, o cenário pintado pelos autores e escritos não é dos melhores, nos apresentando um futuro dominado pelas máquinas e consequentemente por robôs. Quer seja em “Matrix”, “Eu, robô” ou qualquer outra obra do cinema simulando um cenário evoluído, ou ainda no próprio “mundo real”, é realmente difícil pensar num cotidiano sem os ditos “frios”. Mas retornando ao presente e a realidade” , essas máquinas nos possibilitam iversas iniciativas em pról da modernização de processos, otimização e automatização, e que ejá stão mais próximas do que a gente imagina. Várias delas fazem uso regular de tecnologias abertas e software livre, o que aé inda melhor. Dominar a tecnologia que temos em nossas mãos e realmente saber “o que tem dentro” é uma sensação que aqueles que se utilizam do software livre e tecnologias abertas pode mse orgulahr de ter. Projetos como o Robótica Livre e tantos outros apresentam soluções para aprendizagem de novos conceitos, possibilidades de aprimoramento em várias tecnologias, assim como o Arduino possibilita que seus usuários tenham a sua disposição uma plataforma livre para produção de muitos projetos interessantes e promissores.

Conversamos com Danilo Cesar, que é um dos precurssores no assunto e já esteve envolvido em diversos trabalhos na academia, sempre fazendo uso de tecnologias livres e a robótica como elementos principais. Danilo e vários colaboradores, entre alunos e parceiros, enviaram materiais sobre este tema instigante e o resultado pode ser conferido nas próximas páginas. Esperamos que o tema possa abrir os horizontes de vários leitores com tais materiais.

A edição ainda traz uma entrevista com Paulo Trezentos, um dos criadores do GNU/Linux Caixa Mágica, uma popular distribuição de Portugal. A entrevista aconteceu durante o Linux 2011, um evento que aconteceu em Lisboa recentemente e na qual tínhamos um correspondente de lá, o amigo parceiro Anderson Gouveia. Valdir Silva fala sobre certificações e mais especificamente sobre a LPI, trazendo uma série que irá desmistificar várias dúvidas quanto a esta popular certificação. Flávio Siqueira fala sobre a possibilidade de construir jogos sem o uso da programação e apresenta softwares para tal. Kemel Zaidan, parceiro da Revista Espírito Livre, nos envia, com muito pesar, um texto sobre nosso amigo que partiu recentemente, André Gondim. Gondim era colaborador de diversas iniciativas populares de software livre, entre elas, a tradução do Ubuntu para o Português do Brasil. Se você hoje usa o Ubuntu em algum computador, muito provavelmente faz uso da tradução feita por Gondim. Ele também era colaborador da Revista Espírito Livre, tendo enviado materiais para publicação. Suas participações, bem como sua presença, com certeza deixarão saudade.

Recentemente, no II Encontro Nacional de Tecnologia da Informação, que aconteceu em Brasília/DF, recebemos o prêmio “Amigos do Software Público”. Foi um momento ímpar, pois percebemos que nosso trabalho realmente faz a diferença. E a publicação só faz essa diferença por que pessoas como você, leitor, nos acompanha, enviando seus depoimentos e materiais para que continuemos nosso trabalho.

Teremos ainda este mês o I Fórum da Revista Espírito Livre, que acontecerá em Vitória/ES e além de buscar recursos para a publicação, visa aproximar ainda mais leitores, colaboradores e redatores. Esperamos que seja um sucesso. Fica aí o convite.

E assim como em todas as nossas edições, continuamos a contar com você, leitor. Um abraço forte.

FONTE

OS PRISIONEIROS DA MICRO$OFT – Por Sergio Amadeu

sexta-feira, novembro 11th, 2011

Este texto foi publicado originalmente na Revista A Rede, ano 7, n.74, Outubro 2011

Sérgio Amadeu da Silveira

Em 2007, o presidente da Microsoft do Brasil procurou o embaixador norte-americano em Brasília para acusar o governo brasileiro de fazer uma campanha mundial pela consolidação de um padrão aberto, o chamado Open Documento Format (ODF) . O relato do encontro faz parte dos documentos encontrados no no CableGate, os vazamentos de mensagens trocadas entre o governo norte-americano e suas embaixadas, divulgados pelo Wikileaks.

O Brasil, na gestão do presidente Lula, teve um papel internacional destacado em defesa dos padrões tecnológicos abertos, pela atuação dos seus gestores públicos, pelas contribuições de sua comunidade de software livre e pela enorme competência e dedicação de Jomar Silva, coordenador da ODF no Brasil. Jomar estudou detalhadamente o padrão que a microsoft resolveu definir como aberto e mostrou suas falhas e incongruências técnicas contribuindo decisivamente pela não-aprovação do chamado OpenXML na primeira rodada na ISO (Organização Internacional de Padrões) sobre sua adoção.

A microsoft participou da formulação inicial que gerou o ODF. Entretanto, a corporação de softwares proprietários percebeu que se o mundo tivesse um único formato para a guarda de documentos poderia perder sua base de usuários, pois a interoperabilidade e compatibilidade plena trariam mais competição para os seus produtos. Por isso, rompeu com o ODF e alavancou um padrão chamado Open XML que é um amontoado de especificações do chamado Office da microsoft. A corporação passou a pressionar a ISO para aprovar o OpenXML, pois se o mundo tiver dois padrões, na prática não terá a plena comunicabilidade e assim as técnicas de aprisionamento de usuários da corporação de Seatle estariam preservadas.

Formatos são as definições para o armazenamento de dados digitais. Eles podem ser abertos ou fechados. Um formato é aberto quando: está baseado em padrões abertos; foi e é desenvolvido de forma transparente e de modo coletivo; suas especificações estão totalmente documentadas e acessíveis a todos; é mantido para ser usado independente de qualquer produto ou empresa; por fim, é livre de qualquer extensão proprietária que impeça seu uso livre.

Formatos têm grande poder cibernético, pois delimitam, controlam, bloqueiam, aprisionam e criam dependências. Daqui dez anos conseguiremos ler um texto escrito em um papel, mas será que conseguiremos ler um texto guardado em um formato proprietário feito por um software específico? Será que conseguiremos abrir um arquivo de som armazenado em um formato controlado por uma única empresa? E se a empresa descontinuar o formato? Perderemos nossa memória digital?

Existe uma grande diferença entre a “leitura direta” e a “leitura dos formatos”. Esta última exige a intermediação de softwares. Por isso, precisamos de formatos que sejam seguidos por todos e que permitam que diversos softwares possam abri-los. Desse modo, estaremos livres para usar o programa de quisermos para salvar e abrir nossos arquivos.

Em abril de 2010, o então líder da Apple, Steve Jobs, escreveu um texto explicando que Apple não utiliza o formato flash exatamente para não ficar aprisionada a empresa Adobe. Nele, Jobs afirma que “os produtos Flash da Adobe são 100% proprietários. Eles só estão disponíveis a partir da Adobe e a Adobe tem autoridade exclusiva sobre a sua valorização futura, preços, etc.”

No mesmo texto Jobs alerta que “embora os produtos Flash da Adobe estejam amplamente disponíveis, isso não significa que eles sejam abertos, pois eles são controlados totalmente pela Adobe e estão disponíveis somente a partir do Adobe. Por basicamente qualquer definição, o Flash é um sistema fechado.” Jobs sabe que o padrão aberto é o que garante a liberdade de criação e de ação de usuários e de desenvolvedores. Padrões fechados colocam os usuários em prisões lógicas que os tornam completamente dependentes dos desenvolvimentos das empresas que os dominam.

A microsoft é uma das empresas que apostam no aprisionamento dos usuários e não na competitividade de seus produtos. Por isso, sua mais recente cartada de aprisionamento foi anunciada por seus dirigentes para o lançamento do Windows 8. A corporação de Seatle exigirá que as empresas de hardware vendam seus computadores com as instruções de inicialização, a BIOS, criptografadas. Assim, será improvável que um usuário comum possa desinstalar o Windows, instalar o GNU/Linux, o FreeBSD, OpenBSD, e até usar o dual boot, ou seja, os dois sistemas operacionais na máquina. Os estrategistas da microsoft chamam isto de “Trusted Computing” que em protuguês pode ser traduzido por “computação confiável”. Para quem? Confiável para a microsoft tentar manter os computadores de seus usuários aprisionados a seus formatos proprietários. Liberte-se!

Leia o artigo de Richard Stallman “Can You Trust Your Computing?

http://ur1.ca/3s3xm

Milton Friedman era o principal defensor da liberação completa das drogas, inclusive da comercialização

quinta-feira, novembro 10th, 2011

 


Quem trabalhou a discussão da liberação da comercialização das drogas com mais lucidez foi o economista Milton Friedman, pai do liberalismo mundial, que defendia já na década de 70 a liberação completa das drogas e avisava que o mundo iria entrar em uma onda de violência jamais vista. Dito e feito.

Nesta entrevista Friedman falava justamente disso, e ainda vai mais além, quando perguntado sobre o mal causado pelo crack. Ele afirmou que a única razão desta droga existir era porque a cocaína era muito cara, e daí o crack ocupou o seu mercado.

Além de Friedman, a revista inglesa Economist foi a grande incentivadora do debate, defendendo a mesma posição. Atualmente a ONU tem alertado que é preciso abrir o debate, principalmente em função da derrota dos Estados no combate ao narcotráfico, que fez mais vítimas no mundo do que a Segunda Guerra Mundial.

Esta posição não é a favor do uso das drogas, mas é algo semelhante ao que aconteceu com a liberação do álcool. Ninguém é idiota a ponto de defender a embriaguez do cidadão, mas aprender com os erros do passado, onde a proibição do uso fez com que a criminalidade explodisse nas grandes cidades americanas, já é um bom começo.

A posição de Friedman inclusive é um bom ponto para entender que liberalismo não tem nada a ver com esquerda ou direita, mas com uma forma de ver o mundo. Os míopes ideológicos, que não enxergam um palmo além de sua “torcida política organizada”, acreditam que ser liberal é ser de direita.

Abaixo coloco uma outra entrevista de Milton Friedman sobre este assunto. Para quem não fala inglês e não conseguiu acompanhar a entrevista em vídeo, é uma boa oportunidade para saber os fortes argumentos.

 

Paige: Tratemos primeiro do problema da legalização das drogas. Como é que veria a América mudar para melhor com a aplicação desse sistema ?

Friedman: Veria a América com metade das prisões atuais, com metade do atual número de prisioneiros, com menos 10 milhares de homicídios do que aqueles que hoje existem, cidades interiores onde existiria a hipótese da gente pobre que nela residem viver sem medo do que possa acontecer às suas vidas, cidadães que poderiam ser respeitados e que hoje são viciados e que sujeitos a se tornarem criminosos de modo a conseguirem a sua droga preferida, alem de poderem ser capazes de conseguirem a mesma com a certeza de que ela não se encontra adulterada. Você sabe, a mesma coisa que aconteceu durante a proibição do álcool está a acontecer agora.

Durante a proibição do álcool, as mortes devido à ingestão excessiva de álcool, ou devido a envenenamento provocado pela sua adulteração, subiram significativamente. De forma semelhante, por efeito da proibição das drogas, verifica um incremento das mortes por overdose e devidas à ingestão de substancias adulteradas.

Paige: Na sua perspectiva, como é que a legalização poderia afectar de forma adversa a América?

Friedman: O efeito adverso que a legalização pode ter é que bastante provável que possa vir a existir mais gente a consumir as drogas atualmente ilícitas. O que não é de todo certo que tal se verifica-se. Mas se fossem legalizadas, existiria a destruição quase total do mercado negro, o preço das drogas diminuiria drasticamente. E visto como economista verifica-se que: preços baixos tendem a gerar mais procura. Mas no entanto, existem algumas qualificações muito fortes para serem feitas a este respeito. O efeito da criminalização, da construção de criminosos das drogas, é conduzir as pessoas das drogas mais suaves para as drogas mais fortes.

Paige: De que forma?

Friedman: A liamba é uma substancia muito pesada e volumosa, e por esse motivo é relativamente fácil de interditar. Os guerreiros da guerra à droga têm sido melhor sucedidos na interdição da liamba do que, por exemplo da cocaína. Deste modo os preços da liamba aumentaram e ela ficou menos acessível. Esta situação incentivou por um lado a cultura de variedades mais potentes de liamba e por outro as pessoas foram conduzidas da liamba para a heroina, a cocaína ou crack.

Paige: Vamos então considerar agora outra droga, o crack.

Friedman: Na minha opinião, o crack nunca teria existido se não existisse a proibição. Porque é que o crack foi criado? Segundo compreendo, o método preferido de consumir cocaína era a inalação através das narinas, método esse que se tornou muito caro e para alem disso, existia uma procura desesperada de uma forma de a acondicionar…

Paige: Os empresários?

Friedman: Claro, eles são empresários. As pessoas que estão a dirigir o tráfico de drogas não são diferentes de todas as outras, com exceção das seguintes diferenças: eles têm maior habilidade empresarial e menor preocupação em não prejudicar os outros. Dessa forma eles são mais irresponsáveis. Mas estão no negócio e estão a tentar obter o máximo que conseguirem. Sendo assim, descobriram que uma boa forma de fazer dinheiro era diluir o seu crack com bicarbonato de sódio ou outra coisa qualquer, queria dizer cocaína, o que quer seja que eles façam, eu não conheço o processo, de modo a que a possam vender no mercado em doses de 5 ou 10 dólares.

Paige: Falemos mais sobre isso daqui a pouco, mas com respeito ao crack, considerando o fato de ser muito viciante e considerando o fato de…

Friedman: Isso é muito dúbio. É viciante, mas com respeito ao crack o que compreendi de todas as evidencias médicas é que o crack não é mais viciante do que as outras drogas. Na realidade a droga mais viciante é o tabaco.

Paige: Bem, deixe-me refazer a pergunta. Todas as informações que tenho visto sobre ele sugerem que é uma droga que é muito agradável.

Friedman: Absolutamente. Sem duvida.

Paige: E o seu efeito é também muito curto.

Friedman: Sim.

Paige: E é muito dispendiosa porque as múltiplas doses custam muito dinheiro. A minha questão é: se as drogas fossem legalizadas e se a cocaína em forma de crack estivesse disponível a baixo custo, não poderia ser desvastante já que é tão agradável, estou a dizer que mais pessoas a poderiam obter e prolongar o seu consumo por períodos de tempo mais alongados?

Friedman: Bem, talvez. Ninguém consegue dizer com certeza o que aconteceria nessa situação. Mas eu penso que é muito dúbio que tal aconteça, porque todas as experiências recolhidas com as drogas legais indica que existe é uma tendência para as pessoas passarem das mais fortes para as mais fracas e não o contrário, assim como se progride da cerveja normal para a cerveja light. Essa é a tendência: de cigarros sem filtro para cigarros com filtro e baixo teor de alcatrão, e por ai adiante. Mas não podemos excluir que possa acontecer o que disse, mas, e este é um mas muito importante, as consequências prejudiciais do seu consumo seriam devido a várias razões muito menores que os que se verificam atualmente.

Na realidade a coisa que mais me incomoda sobre o crack não é o que está a falar, são os “bebês do crack”, porque isso é que é uma tragédia real. Eles são as vitimas inocentes. Mas se eles não escolheram ser “bebês do crack”, na verdade os que nascem com o síndrome alcoólico fetal também não o escolheram menos.

Paige: Como você sabe, em relação a isso, já vivemos numa situação com proporções epidêmicas. Posso dizer-lhe que em Maryland, um em cada quatro bebés que chegam ao hospital são viciados.

Friedman: Mas eu digo-lhe que os “bebês do crack” não são necessariamente viciados, mas têm tendência para nascer com pouco peso, com tendência para sofrer algum retardamento mental, e por ai adiante. Mas você sabe que o numero de bebês em que isso se verifica devido ao álcool é muito maior. Então o mesmo problema surge ai. E é o que me incomoda.

Debaixo das atuais circunstancias, uma mulher que é viciada em crack e está grávida tem medo de recorrer a qualquer tratamento pré-natal porque se tornaria a si própria numa criminosa, e estaria sujeita a ir para a cadeia. Agora suponha que existiria uma mudança de política, e que as drogas eram legalizadas. Com a legalização, essa inibição deixaria de existir. E você sabe que mesmo as mães viciadas em crack tem sentido de responsabilidade em relação aos filhos.

Não tenho duvidas que nessas circunstâncias seria possível ter um sistema de cuidados pré-natais muito mais eficaz, um sistema muito mais eficaz para persuadir as pessoas que consomem drogas a não ter filhos ou a não consumirem no período da gravidez e da aleitação.

Paige: Vamos voltar-nos agora para a primitiva gênese da sua crença de que as leis das drogas podem não estar a funcionar na forma como a nação tinha esperança que funcionassem. Fale-me acerca dos elementos que observou anteriormente e que mudaram a opinião ou a sua forma de pensar.

Friedman: Bem, eu não disse “mudaram”, eu diria melhor “formaram” a minha forma de pensar, já que não me lembro de alguma vez ter sido a favor da proibição quer de álcool ou de drogas. Eu cresci, sou suficientemente velho para ter vivido uma parte do período da proibição.

Paige: E lembra-se dele?

Friedman: Eu lembro-me de uma ocasião em que um sujeito da Suécia, estudante na Universidade de Columbia quis levar-me à um restaurante para comer uma refeição sueca e deu-me a conhecer uma bebida sueca chamada aquavit. Este restaurante era o mesmo em que o sujeito consegui o aquavit durante a proibição; eles vendiam-no a ele. E isto logo após a abolição da proibição. Nós fomos lá e ele pediu-lhes algum aquavit. Eles disseram. “Oh, não, nós ainda não temos a nossa licença”. Numa ultima tentativa ele falou com eles em sueco e convenceu-os a levar-nos às traseiras onde nos deram um copo de aquavit. Agora isto mostra o absurdo que era a proibição.

A proibição foi abolida em 1933 quando tinha 21 anos de idade, pelo que durante a proibição era um teenager. O álcool estava facilmente disponível. O contrabando era comum. Qualquer idéia de que a proibição estava a impedir as pessoas de o consumir era absurda. Existiam denuncias (Speakeasies) por todo o lado. Mas mais que isso. Tínhamos o espectáculo do Al Capone, das extorsões, das guerras dos gangs…

Qualquer pessoa com dois olhos poderia ver que a proibição era um mau negócio, que produzia mais malefícios que benefícios. Para além disso, tornei-me economista. E enquanto economista, vim a reconhecer a importância dos mercados, da livre escolha e da supremacia dos consumidores, e vim a descobrir o dano que é causado quando se interfere com eles. As leis contra as drogas foram instauradas em 1914, mas na altura não existiu um grande esforço na sua aplicação.

Paige: Esse era o Decreto Harrinson?

Friedman: O Decreto Harrinson. Não existiu um grande esforço na sua aplicação até ao fim da segunda guerra mundial, por essa altura já era capaz de ver os efeitos maléficos do controlo de preços, do controlo das rendas, ou de outras tentativas para o governo interferir no campo do mercado. Por mim, nunca me ocorreu ser a favor.

Paige: Existiu algum acontecimento especifico, qualquer coisa que acontecesse ter observado e que o impressionou ou foi…

Friedman: Não, não existiu nenhum acontecimento único. Foi um efeito cumulativo.

Paige: Claro, você sabe que existem pessoas que dizem que quando a proibição acabou, o consumo aumentou dramaticamente e que isso poderia ser…

Friedman: peço perdão, isso simplesmente não é verdade. Isso não é um fato. O que é verdade…

Paige: Tem sido argumentado. É o que tem sido argumentado.

Friedman: Em vários livros com registos estatísticos, você tem números sobre as quantidades de álcool consumidas. Logo após a proibição elas subiram significativamente, mas esse era um consumo ilícito de álcool. Se tomar, assim como eu fiz, o gráfico do consumo de álcool antes e depois da proibição, verifica que o consumo de álcool voltou de novo para valores aproximados aos anteriores à proibição, e, desde então até a agora, se aconteceu alguma coisa foi que o consumo de álcool tem descido não em termos absolutos, mas relativamente à população e relativamente ao aumento de rendimentos.

Durante um tempo, aumentou lentamente, em sincronia com o rendimento, com uma exceção. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele aumentou vertiginosamente. Mas isso foi o que aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial. Claro está, que nunca teria existido a proibição se você não tivesse todos jovens ausentes na França na altura em que a votação foi feita, e então as mulheres tiveram uma influencia extraordinária nela. E então após a segunda guerra mundial, ele voltou a descer outra vez. E mais recentemente, o consumo de álcool tem vindo a descer numa base per capita. Pelo que simplesmente não é verdade que tenha existido um aumento tremendo.

Friedman: No que respeita às drogas, alguns anos atrás, o Alaska legalizou a liamba. O consumo de liamba entre os estudantes do liceu diminuiu. Na Holanda, o governo não leva a tribunal as drogas leves, como a liamba, e preferiam fazer o mesmo em relação às drogas duras, mas eles sentem-se impelidos a isso pelas obrigações internacionais a que aderiram, e diminuiu o consumo de liamba pelos jovens. E mais interessante, é que a idade média dos consumidores de drogas duras subiu, o que significa que não estão a fazer novos recrutas.
Então as evidencias estão muito confusas. Mas tenho que admitir que uma das características negativas de legalizar as drogas é que podem vir a existir alguns hábitos adicionais de consumo de drogas. Contudo, quero qualificar que eles já existem de qualquer outra forma.
Uma criança que é morta num tiroteio num gueto, num tiroteio aleatório, é uma vitima inocente em todos os sentidos. O indivíduo que decide tomar drogas por ele próprio não é uma vitima inocente. Ele escolheu por si próprio ser vitima. E tenho que dizer que tenho muito menos simpatia por ele. Não penso que seja moral impor custos tão elevados a terceiros para os proteger das suas próprias escolhas.

Paige: Para que compreendamos as raízes reais dessas ideias, que tal se falasse-mos um minuto acerca da perspectiva econômica do mercado livre, e de qual considera ser o devido papel do governo na sua interação com os indivíduos.

O devido papel do governo é exactamente aquele que foi enunciado em “Sobre a Liberdade” por John Stuart Mill em meados do século passado. O devido papel do governo é prevenir que terceiros prejudiquem um indivíduo. O governo, disse ele, nunca teve qualquer direito para interferir com o indivíduo para o próprio bem do indivíduo. O caso da proibição das drogas é exatamente tão fraco ou tão forte como o caso de proibir as pessoas de comerem demais.
Todos nós sabemos que comer de mais é a causa de um maior número de mortes do que as provocadas pelas drogas. Se for por principio correto para o governo dizer que não podemos consumir drogas porque elas nos fazem mal, porque é que não está de todo correto impedir-nos de comer de mais porque isso nos faz mal? Porque é que não está correto dizer que não podemos experimentar praticar skydiving porque é provável que se morra? Porque é que não está correto dizer. “Oh, esquiar, isso não é bom, é um desporto muito perigoso, você vai magoar-se a si mesmo”? Onde é que se desenha a linha?

Paige: Bem, eu poderia apostar que o antigo Czar da droga, William Bennet, assim como outros da mesma linha, provavelmente sugeriam que a presente venda e distribuição de drogas ilegais é de fato uma empresa que prejudica outra pessoa e o governo tem de se intrometer..

Friedman: (simultaneamente) Prejudica bastantes..

Paige: ..para proteger os vulneráveis

Friedman: Prejudica muitas outras pessoas, fundamentalmente por ser proibido. Existe atualmente um enorme número dessas vitimas inocentes. Você tem as pessoas que vêm os seus haveres roubados, as que são agredidas pelas que tentam arranjar dinheiro suficiente para o próximo chuto. Você tem as pessoas que são mortas na aleatória guerra à droga. Você tem a corrupção do sistema legal. Você tem as vitimas inocentes que são os que pagam impostos, e que têm que pagar para que existam cada vez mais prisões, e para cada vez mais prisioneiros, e para cada vez mais policias. Você tem-nos a nós e a outros como nós que não obtêm uma aplicação decente da lei, porque os agentes da autoridade andam ocupados a tentar o impossível.
E por ultimo, se bem que não menos importante, você tem as pessoas da Colômbia, do Peru, e por ai fora. Que interesse é que nós temos ao destruir e levar à matança de milhares de pessoas na Colômbia apenas porque não conseguimos aplicar as nossas próprias leis? Se conseguisse-mos aplicar as nossas leis contra as drogas, não existiria mercado para essas drogas. Você não teria a Colômbia no estado que está.

Paige: Não é verdade que toda a discussão aqui, todo o problema da droga é um problema econômico para..

Friedman: Não, não é um problema econômico, é um problema moral.

Paige: De que forma?

Friedman: Eu sou um economista, mas o problema econômico é terciário. É um problema moral. É o problema dos malefícios que o governo faz.

Estimei estatisticamente que a proibição das drogas produz em média 10.000 homicídios por ano. O governo andar para ai a matar 10.000 pessoas é um problema moral. Que o governo transforme indivíduos que podem estar a fazer algo que você e eu não aprovamos, mas que não prejudica mais ninguém, em criminosos, é um problema moral. A maior parte das detenções por drogas são entre consumidores ocasionais que são acusados de posse.

Suponhamos que está aqui agora alguém que quer fumar um cigarro de liamba. Se for apanhado vai para a prisão. Será isso moral? Eu penso que é completamente repugnante que o governo, que será supostamente o nosso governo, possa ter uma atitude que converte em criminosos pessoas que não estão a prejudicar as outras, numa atitude que destroi as suas vidas colocando-as na prisão. Isso é que é um problema para mim. Os aspectos econômicos apenas surgem para explicar porque é que tem estes resultados. Mas as razões econômicas não são as razões do anti-proibicionismo.

Claro que gastamos dinheiro na proibição. Dez, vinte, trinta biliões de dolares por ano, mas isso é trivial. Estamos a gastar tanto dinheiro em muitas outras formas, como por exemplo comprando colheitas que nunca seriam produzidas.

Paige: Existem muitos que olhariam para a economia – como é que a economia do negócio da droga está a afetar as maiores cidades do interior, por exemplo.

Friedman: Claro que está, e está porque é proibida. Vê, se você observar a guerra à droga de uma perspectiva puramente econômica, o papel do governo é proteger o cartel da droga. O que é literalmente verdade.

Paige: E nesse caso está a fazer um bom trabalho?

Friedman: Excelente. O que quero dizer com isto. Num mercado livre normal — por exemplo considere batatas, bifes, qualquer coisa que queira – existem milhares de importadores e exportadores. Qualquer pessoa pode entrar no negócio. Mas é muito difícil para uma única pessoa entrar no negocio da importação de drogas já que os esforços de interdição tornam-na imensamente onerosa e difícil. Então, os únicos que conseguem sobreviver nesse negócio são do tipos dos grandes cartéis de Medellin, os quais tem dinheiro suficiente, pelo que podem ter frotas de aviões assim como podem ter métodos sofisticados, e por ai fora.
Para alem disso, ao manter essas mercadorias no exterior, e prendendo, por exemplo, os produtores locais de liamba, o governo mantêm elevados os preços desses produtos. O que poderia quer mais um monopolista? Ele tem um governo que torna a vida muito difícil aos seus competidores e mantém o preço dos seus produtos elevados. Para ele é céu absoluto.

Paige: Claro que você sabe da existência de defensores das teorias da conspiração, as quais sugerem que a proibição continua a existir por uma razão, ou seja porque os nossos governos estão a colaborar com os traficantes; você não diria isso .

Friedman: Não, não é. Não diria isso de modo nenhum. Você sabe que sucede de forma repetida que as políticas do governo, cheias de boas intenções acabam por correr mal e serem prejudiciais. A razão que faz com que as boas intenções dêem maus resultados é que os políticos gastam o dinheiro dos outros.

Paige: Muitos poderiam dizer que muitas das suas teorias são baseada na noção de interesse pessoal; se algo for do interesse pessoal para uma pessoa, ele ou ela o fará.

Friedman: Isso não é uma teoria e não existe ninguém que o negue. Será que existe alguém que negue que se pode esperar que todos persigam o seus próprios interesses pessoais? Agora esses interesses pessoais não têm de ser reduzidos. A Madre Teresa persegue o seu próprio interesse tanto quanto o Donald Trump persegue o seu. São interesses diferentes, mas ambos perseguem o seu interesse pessoal.

Paige: Algumas pessoas podem dizer que essa noção – que o interesse pessoal é o que impulsiona a sociedade assim como os indivíduos – e uma filosofia sem coração e que as classes mais desfavorecidas não se saem bem com esse tipo de noção. Já ouviu isto anteriormente.

Friedman: Sim claro. Mas as evidências são tão esmagadoras. Os únicos países do mundo em que os indivíduos das classes com baixos rendimentos conseguiram um meio caminho para o nível de vida decente são aqueles que dependem de mercados capitalistas. Compare apenas a qualidade e o nível de vida das pessoas normais na Rússia e das pessoas, já não diria dos EUA, mas da França, Itália, Alemanha, Inglaterra, ou de Hong-Kong. Compare Hong-Kong com a China continental.

Todas as sociedades são conduzidas pelo interesse pessoal. A China é conduzida pelo interesse pessoal. A questão é: como é que o interesse pessoal é disciplinado? Se a única forma de você satisfazer o seu interesse pessoal for conseguindo algo pelo qual os outros lhe paguem. Então você tem de…

Paige: Ou apontando uma pistola à nuca de alguém. Suponho eu.

Friedman: se o puder fazer.

Paige: Num caso extremo.

Friedman: Numa situação extrema. Mas isso não consegue a sua cooperação. Você pode ser capaz de os matar. Você pode ser capaz de lhes tirar os seus bens. Mas isso não irá criar maior prosperidade. Então as únicas sociedades que tem sido capazes de criar uma base relativamente alargada de prosperidade têm sido aqueles que dependem fundamentalmente de mercados capitalistas. Isto é verdade quer você tome Hong-Kong versus a China continental, Alemanha de Leste versus Alemanha Federal, a Checoslováquia antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Você não consegue encontrar uma única exceção a esta preposição.

Adam Smith definiu-a da melhor forma à duzentos anos atrás, quando disse que as pessoas que procuram os seus próprios interesses são conduzidas por uma mão invisível na promoção do interesse público mesmo que isso não faça parte das suas intenções. O Sr. Ford não desenvolveu o seu carro a pensar no interesse publico. Ele desenvolveu por interesse próprio.

Paige: Mas Adam Smith também apontou um papel para o governo, por exemplo a administração de justiça. Não foi?

Friedman: Assim como eu. Não sou uma pessoa defensor da ausência de governo. Penso que existe um papel real para o governo e uma das razões pela qual coloco tantas objecções a tantas das coisas em que o governo se meteu é porque estas o impedem de desempenhar o seu devido papel. Um papel básico do governo é protege-lo, a si e aos outros cidadãos, de ver a sua casa assaltada e de protege-lo de agressões físicas. E devido a uma grande parte da nossa máquina de aplicação da lei estar devotada à guerra à droga, você não tem esse tipo de segurança.

Paige: Mas é claro que existe o argumento de que se a policia prender um viciado em droga que não tenha dinheiro para comprar essa droga, eles estão também a retirar das ruas um potencial ladrão que poderia assaltar a minha casa. Certo?

Friedman: Eles são potenciais ladrões, mas como você sabe depressa virão mais para os substituir, e para além disso o que é que voce vai fazer com eles. Vai encarcera-los? A maioria das pessoas são presas são por simples posse, eles são consumidores ocasionais.

Paige: Contudo, uma senhora de sessenta e cinco ou setenta e cinco anos que olhe pela sua janela e veja traficantes de droga na sua rua, e os veja na posse de armas e a vender drogas a trinta metros da sua porta, tem o direito de chamar a policia e de dizer: “Quero esta gente fora daqui.”

Friedman: Absolutamente.

Paige: E a policia deve retira-los da rua. Correto?

Friedman: Absolutamente. Mas a existência de uma lei que faça disso a principal função da policia é um erro. Eu não culpo a policia. Eu não culpo essa mulher. Eu não culpo os traficantes de droga.

Paige: De que forma?

Friedman: Nós colocamo-los numa posição em que é o que têm a fazer. Quando dizemos a um jovem de um guetto: “Olha, tu arranjas um emprego razoável no McDonald’s ou em qualquer outro lugar, e ganharás cinco, seis, ou sete dólares por hora. Mas por outro lado, existe a oportunidade de distribuir drogas na rua.” Porque que é que os jovens têm essa oportunidade? Porque a lei é mais benevolente com os jovens do que com os adultos.

Paige: Como é que você vê os efeitos da legalização sobre os pobres deste pais

Friedman: Os pobres? Isso depende de que pobres. Mas no geral, a simples legalização não teria um efeito significativo nos pobres. Ela poderia permitir melhores oportunidades aos pobres ao transformar as cidades interioranas em locais mais seguros nos quais possam empreender negócios decentes e lucrativos. Poderia fornecer uma oportunidade para melhorar a escolaridade. A deterioração da escolaridade, que é outro caso da ineficácia do socialismo, tem tal como as drogas muito a ver com os problemas das cidades interioranas. As drogas não são o único fator interveniente.

Mas eu não acredito que a legalização deva ser fundamentalmente encarada como uma forma de ajudar os pobres. A legalização é uma forma de impedir – no nosso forum enquanto cidadãos – o governo de continuar a utilizar o nosso poder para manter o comportamento imoral de assassinar pessoas, roubando vidas a pessoas dos Estados Unidos, da Colômbia e de todos os outros lugares, coisa que não temos o direito de fazer.

Paige: Então você vê o papel atual do governo, como sendo tão mortífero como se o Tio Sam andasse a disparar contra as pessoas .

Friedman: Claro, é o que ele está a fazer. E atualmente o Tio Sam não está apenas a disparar contra as pessoas, ele está a retirar-lhes as suas propriedades sem qualquer procedimento legal. Os agentes da repressão das drogas estão a expropriar os bens, muitas vezes de pessoas inocentes para as quais não têm mandato real. Eles estão a transformar os cidadãos em espiões e informadores. O governo diz às pessoas para elas fazerem denuncias telefônicas, sem sequer se identificarem, mas apenas para informarem as suas suspeitas. È uma forma horrível para conduzir o que é supostamente um pais livre.

Paige: Nestes últimos poucos minutos vamo-nos voltar especificamente para a sua visão. Segundo o seu sistema, se você pudesse fazer um desejo e ele se realizasse, que sistema seria? Como é que legalizaria as drogas? Como é que iria fazer tal coisa?

Friedman: Eu legalizaria as drogas submetendo-as exatamente às mesmas regras que o álcool e o tabaco são atualmente sujeitos. O álcool e o tabaco causam pelo seu consumo um numero muito maior de mortes que as drogas, mas no entanto causam muito menos vitimas inocentes. E as principais vitimas inocentes, são nesse caso as pessoas que são mortas pelos condutores embriagados. Deveríamos aplicar a lei contra a condução sobre o efeito do álcool, tanto quanto deveríamos aplicar a lei contra a condução sobre a influencias de marijuana, cocaína ou qualquer outra.
Mas num primeiro passo, trataria as drogas da mesma forma que agora tratamos do álcool e do tabaco, e não de forma diferente.

Paige: Você sabe o que é que o deputado Charles Rangel (Nova Iorque) diria?

Friedman: Já ouvi o Charles Rangel. Ele é um demagogo, que não tem qualquer relação entre o que diz e os interesses reais dos seus constituintes. Os seus constituintes, as pessoas que ele serve, estão entre as pessoas que mais beneficiariam com a legalização das drogas. Mas ele prefere dizer-lhe o que eles gostam de ouvir, e não o que eles realmente necessitavam de ouvir.

Paige: Perdoe-me por lhe lançar um nome, mas eu apenas quis mencionar uma resposta típica ao que seria se tratasse as drogas como o álcool, você está a falar de anúncios de página inteira à cocaína. Está a falar sobre anúncios na televisão. Você está a falar acerca de comprar cocaína…

Friedman: Peço perdão. Atualmente os anúncios ao álcool na televisão são proibidos.

Paige: Apenas para as bebidas brancas.

Friedman: Para as bebidas destiladas. E eu disse que tratava da mesma forma que tratava o álcool pelo que presumivelmente esses anúncios eram proibidos. Mas claro, em qualquer situação nunca proibiria ninguém de ler o que escreve o Sr. Rangel, e as suas ideias são pelo menos tão perigosas como esses anúncios de página inteira que falou.

Paige: O que é que mais o amedronta na noção das drogas serem legais

Friedman: Nada me amedronta na noção das drogas serem legais.

Paige: Nada.

Friedman: O que me amedronta é a noção de continuarmos no caminho em que estamos agora, e que destruirá a sociedade livre, transformando-a num local não civilizado. Atualmente apenas existe uma forma de realmente aplicar as leis anti-droga. A única forma é adotar as políticas da Arábia Saudita ou de Singapura, que já alguns outros países adotaram, e nas quais os toxicodependentes estão sujeitos à pena capital, ou no mínimo, a verem uma das suas mãos amputadas. Se desejarmos ter este tipo de punições… Mas será que essa seria uma sociedade onde desejaríamos viver?

Paige: Essas noções parecem-lhe obvias?

Friedman: Sim. Tenho pensado nisto à muito tempo. Desde há muito tempo que tenho observado o comportamento neste país e nos outros. E eu verifiquei que praticamente incrível como é que as pessoas conseguem apoiar o atual sistema. Este sistema traz muito mais malefícios que benefícios.

Paige: Se é obvio, porque é que você está incluído numa minoria, particularmente entre…?

Friedman: Claro. Essa é uma boa questão. E a resposta, é que existem demasiados interesses associados, interesses que se construíram em torno da atual guerra à droga. Quais são as pessoas que se interessam pelas drogas? As pessoas que têm a obrigação de aplicar as leis da droga. Eles pensam que estão a fazer o que está certo. Eles são bons seres humanos. Todos pensam que o que estão a fazer tem algum valor. Ninguém o faz por maus motivos. Mas isto é a mesma coisa por todo o governo.

Paige: Concorda que o medo é um dos maiores fundamento para as atuais leis da droga. O medo de que sem elas o mundo se desmorone.

Friedman: Sim. Mas é um medo falso, que é promovido. Ouça o que disse o antigo czar da droga, o Sr. Bennet. Primeiro que tudo, ele afirmou que o consumo de álcool após o fim da proibição subiu qualquer coisa como três ou quatro vezes mais. Ele está errado. Fatualmente errado. Ele teve todos os tipos de conversa apavorantes sobre quantos novos dependentes existiriam. Ele nunca forneceu uma única evidência, nunca forneceu nenhum exemplo sobre qualquer outro local ou situação. Mas porque? Porque ele tem um trabalho a fazer.

Paige: Interesses associados, dizia você.

Friedman: Interesses associados, o interesse proprio, o mesmo interesse pessoal que se vislumbra no mercado. Mas no mercado, se você iniciar um projeto e ele correr mal, terá de o financiar do seu próprio bolso.

Paige: Ultima questão. Você têm netos?

Friedman: Absolutamente.

Paige: Você tem uma neta com dois anos.

Friedman: Sim.

Paige: E como é o seu nome?

Friedman: Ela chama-se Becca

Paige: Quando você observa a Becca, o que é que você vislumbra para ela e para o seu futuro?

Friedman: Isso depende inteiramente do que você e os seus concidadãos fizerem ao nosso país. Se você e os seus concidadãos continuarem a dirigirem-se cada vez mais na direção do socialismo, não apenas através da inspiração da vossa proibição da droga, mas também pela vossa socialização das escolas, da socialização da medicina, da regulação industrial, eu vislumbro para a minha neta algo semelhante ao comunismo soviético de à três anos atrás.

“Por que descriminalizar?” por Sergio Amadeu

segunda-feira, novembro 7th, 2011

Linus Torvalds: Patentes de Software e Processos não fazem sentido

segunda-feira, novembro 7th, 2011

 

Linus TorvaldsOriginalmente: Swapnil Bhartiya (http://www.muktware.com/news/2866)
Traduzido: Marcelo Soares Souza

Swapnil: Qual é a sua opinião sobre as atuais disputas de direito autoral (copyrights) e patentes?

Linus: Eu penso que as questões de direito autoral, e especialmente as disputas de patentes, se tornam muito desagradáveis muito rapidamente. Especialmente sobre patentes, onde o vencedor fica com tudo em termos realmente insanos – não existe meio termo. Você ganha ou perde. Isto torna as coisas realmente desagradáveis de uma perspectiva legal.

Eu preenchi pelo menos 3 patentes durante o meu tempo na Transmeta. Era sobre hardware então eu estava satisfeito sobre isto. Foi uma experiência interessante. Eu não estou dizendo que eram patentes maravilhosas — Eu estou dizendo que foi interessante ver a linguagem louca das patentes, que você tem que ter e esta é a razão que você tem que ter um advogado de patentes, porque a linguagem não faz qualquer sentido.

Nos Estados Unidos tecnicamente é Inglês mas realmente não é Inglês. É como usar as palavras em Inglês mas estas tem diferentes significados para eles. Existe todo um conjunto, diferente, de regras sobre o que cada coisa significa quando eles fazem uma aplicação de patente. Como eu disse é uma experiência muito interessante e eu não estou triste por causa disto. Não é horrível como muitas outras patentes.

Eu penso que patentes podem funcionar melhor em outras áreas do que na nossa. Patente de Software? Não. Patente de Processo? Não. Estas não fazem qualquer sentido.

Discussões sobre Direito Autoral pode ficam feia também. Estas tendem a ser tornarem “ganhadores tomam tudo” mesmo que na vida real, muitas questões não são preto e branco, estas são algo cinzento. Pessoas fazem as mesmas coisas por razões simples, você só faz algo que faz algum sentido. O código pode até ser desenvolvido completamente diferente e pode parecer similar. Assim, mesmo nos direitos autorais, que é muito melhor que as patentes, as coisas podem ficar desagradáveis.

A SCO foi um exemplo clássico. Quando eles tentaram usar o direito autoral, que acabou por se tornar completamente errôneo em muitas maneiras, e transformou isto em uma batalha legal sórdida. Eles perderam terrivelmente.

O que foi mais irritante em todo este negócio, como um conhecedor do que eles estavam alegando era totalmente falso, foi que levou dez anos para eles perderem. É assustador. 10 Anos! Eu não sei quantos milhões de dólares a IBM e a Novell gastaram lutando com este lixo completamente falso; lutando ações judiciais que não fazem sentido. Literalmente não fazia qualquer sentido. Ao ponto que terminou mostrando que eles sequer tinham os direitos autorais que estavam reivindicando, mas nunca se esqueça que o direito autoral que estes estavam reivindicando nunca foram verdadeiros. Cristo, que caos!

Então o sistema legal e a alta tecnologia não é uma boa combinação. Nos Estados Unidos eles tem júri ao contrário do sistema finlandês, similar ao Alemão, onde se tem profissionais especializados e não júri.

Linus Torvalds sobre a disputa Oracle-Google

Swapnil: Qual é a sua opinião sobre a batalha entre a Oracle e o Google sobre o Android?

Linus: Eu realmente não sei muito sobre isto e é outro exemplo clássico de ações judiciais não sendo tudo isto. Parece-me completamente falso e é um tanto embaraçoso.

Um dos argumentos de defesa, que esta sendo usado, é uma postagem do blog do Jonathan Schwartz’s falando que esta feliz que o Google esta usando a tecnologia deles e o fato de que a companhia, depois de ser vendida alguns anos depois, da a volta e processa o Google por usar sua tecnologia — isto meio que diz para você que “OK, existe algo de errado acontecendo”.

Eu realmente não sei os detalhes. Quero dizer, Java eu realmente não me importo. Que linguagem horrível. Que Máquina Virtual (VM) horrível. Então, estou como sempre, estão latindo sobre toda esta porcaria, vá embora. Eu não me importo.

FONTE

Software Livre e o mito do voluntariado – Por Marcelo Soares Souza

sexta-feira, novembro 4th, 2011

“Software Livre é uma questão de liberdade, não de preço” com estas palavras Richard Stallman costumava definir parte da ideia deste movimento que nos últimos anos encontrou seu espaço e se consolidou com uma alternativa real a um outro movimento, também com forte conotação ideológica e que também tem seus ditos messias e profetas, o do software proprietário. Modelos de negócios surgiram e se consolidaram em torno do Software Livre, este já faz parte do jogo de mercado e é um fato que dificilmente regredira. Software Livre também esta no mercado para competir, para oferecer a melhor solução pelo melhor preço.

Porém ainda existe muita confusão, ainda existe muita cobrança daquele quer de ideológico de toda esta história, desejo justo porém que precisam ser esclarecidos. Entenda que desenvolver Software não é, a todo tempo, algo mágico e misterioso, a arte esta nos detalhes mas nem todos são ou querem ser artistas. O querer dedicar a vida a construir algo relevante esta no imaginário de todos, porém esbarramos numa realidade dura qual concreto e no fato de que nem todos irão dar as mãos e abdicar de tudo mais.

Socialmente justo, economicamente viável e tecnologicamente sustentável são palavras de ordem, em per si o socialmente justo esta implícito na proposta do Software Livre, o tecnologicamente sustentável é uma realidade desde sempre na tecnologia da informação pois quem consome também pode, se assim o quiser, produzir suas próprias ferramentas tornando-se independente, porém o economicamente viável depende sim do jogo de mercado, da troca direta de algo imaterial por algo também imaterial (afinal a cédula de papel também é um simbolo, uma representação de algo) que se transforme em material para provê o sustento desta nosso invólucro material.

Não raramente exige-se um comprometimento hercúleo daqueles que se propõe a enfrentar este desafio de produzir algo que de imediato não tem valor de trocar, pois é dado de graça, livremente a qualquer um que queira usufruir. A aquele que consome, que usa e usufrui plenamente desta dádiva o único compromisso que é exigido é que mantenha as mesmas regalias que lhe foi dado, seja justo e compartilhe. Justo, se do seio da sociedade obtivemos nossos conhecimentos, se da troca constante crescemos e amadurecemos nossos frutos tem que ser compartilhados com todos.

A dinâmica de mercado é importante sim para o Software Livre, precisa-se sim da troca para complementar o trabalho, o esforço, as ideias expressas e quiça o suor. Não conheço um único profissional de TI que não se sentiria muito mais satisfeito e pleno trabalhando em uma iniciativa de Software Livre sendo bem remunerado do que em qualquer outro projeto no outro modelo proposto. Existe uma satisfação sem igual em contribuir e mostrar seu trabalho abertamente, além do sentimento caridoso esta a necessidade de reconhecimento entre os pares. Tão melhor se bem remunerado financeiramente para que se possa retroalimentar a própria existência material de maneira plena.

Nem todo trabalho de Software Livre é voluntário, caridoso, eu diria que muitos antes outros sentimentos afloram naqueles que embarcam nesta ideia. O desejo de construir algo relevante para ser reconhecido, a vontade de aprender e tantos mais. O reconhecimento é negado a aqueles que se fecham e trancam suas ideias com medo de que sejam tomadas de assalto. Eu sei quem é Linus Torvalds e o que ele fez, eu sei quem é Richard Stallman e o que ele fez, eu sei cada nome e louvo cada desenvolvedor de Software Livre, são heróis conhecidos, estes nomes estão escritos na história.

E você sabe quem fez aquele tão afamado Sistema Operacional ou apenas o nome de quem pagou por ele? “Herói” desconhecido, soldado (programador) sem nome, seus esforços são em vão, não irei chorar tua morte pois teu nome não me foi dito.

Nas supostas palavras de Bernard Shaw, “Se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã, se as trocarmos, cada um de nós continuará com apenas uma maçã. Mas eu tenho uma idéia, e você tem uma idéia. Se as trocarmos um com o outro, ambos teremos duas idéias”. O desenvolvedor de Software Livre além das tuas ideias precisam de algumas maças também, afinal são gente como a gente. Penso logo existo, mas se não como logo, logo não mais existo.

Peguemos os exemplos mais bem sucedidos no Software Livres tais como a Fundação Mozilla, nascido das entranhas da Netscape Communications Corporation, uma base solida de ideias, um ideal e sim investimentos de capitais consideráveis, neste ano lucro de mais de 120 milhões. LibreOffice, descendente direto do StarOffice, uma boa ferramenta que se tornou uma excelente alternativa quando aberta a novas ideias e que vem poupando tantos bolsos públicos e privados. Melhorias notáveis no simbolo maior do Software Livre o Kernel Linux se deram, nos últimos anos, com a entrada de investimentos diretos de recursos financeiros para seus mais proeminentes colaboradores. E é algo que aprendi é que grandes corporações não investem sem a certeza de ganhos futuros.

Querer a troca justa do trabalho pelo sustento não é imoral, não deturpa a ideia de Software Livre, não corrompe seus participantes e muito menos os aproxima do modelo do software proprietário. Entenda que para ser Socialmente justo e tecnologicamente sustentável é preciso ser economicamente viável para aqueles que trabalham por este, que gastam incontáveis horas além do expediente diário para construir soluções que sejam úteis a todos e que para isto apenas pedem que seja você também seja justo, compartilhe.

Agora imagine, se como voluntário, os desenvolvedores de Software Livre, produzem tantos frutos que beneficiam a tantos, como um trabalhador pleno o quanto mais poderia fazer por você, por todos nos?

FONTE: http://marcelo.juntadados.org/node/view/software-livre-e-o-mito-do-voluntariado