agosto 6th, 2012

...now browsing by day

 

Em toda parte – Por Murilo Roncolato

segunda-feira, agosto 6th, 2012

O uso de programas e sistemas de código aberto já é difundido e começa a abrir espaço para negócios que têm como base o software livre

PORTO ALEGRE – Durante quatro dias programadores, empresas de tecnologia e representantes do governo se reuniram em Porto Alegre (RS) para discutir os rumos das plataformas abertas no País, durante o Fórum Internacional do Software Livre (Fisl). O modelo de negócio que prevê o acesso irrestrito aos códigos de programação de softwares amadureceu e hoje não é apenas uma boa opção para o setor público, mas também para quem quer trabalhar na iniciativa privada.

A prova disso é que a 13ª edição do Fisl teve, pela primeira vez, uma rodada de negócios entre empresas e desenvolvedores. A novidade mostra que é possível fazer dinheiro sem vender licença de software, como o Windows ou o Office.

A empresa Dextra é um dos muitos exemplos. “Não acho que softwares da Microsoft sejam ‘do mal’. É uma opção”, diz seu diretor de tecnologia, Bill Coutinho. “Mas software proprietário tende a amarrar o cliente e, para nós, a opção livre é mais interessante.”

Rodolfo Gobbi, diretor da 4Linux, que presta consultoria, dá cursos e suporte a soluções livres, aponta outro ponto. “Há a vantagem de formar profissionais melhores. Quem vem do software livre e aprendeu o que é sistema operacional no Linux, evolui mais rápido.”

A receita é indireta e vem dos serviços prestados depois. É um modelo mais difícil, mas que tem suas vantagens, como diz o administrador do Portal Android, Alexandre Antunes. “Tudo que já foi feito e pensado, não precisa ser feito e pensado novamente, funciona como um ciclo incremental.”

O peso dos governos é crucial pois é ele que decide se, nas escolas, os alunos aprenderão a mexer no Adobe Photoshop ou se farão seu próprio editor de imagens. E não só. Como o governo é um grande comprador destas ferramentas, definir se o dinheiro público será destinado a licenças de uso de softwares proprietários ou em capacitação para o outro modelo é definitivo.

“Governos devem buscar o melhor software, se será aberto ou fechado, não importa”, opina Jon “Maddog” Hall, diretor da Linux International e um dos principais embaixadores desta lógica. Além da questão econômica, ele cita a preocupação do governo em não perder o desenvolvimento de softwares porque uma empresa faliu ou deixou de atualizar seus programas. “Plataformas abertas também ajudam a evitar fuga de cérebros, incentivando estudantes a bolarem soluções nacionais em vez de ir para o Vale do Silício atrás de emprego.”

É por isso que tentativas de incentivo ao uso de software livre aparecem vez ou outra em Brasília. O projeto de lei 2269/1999, atualmente na Comissão de Constituição e Justiça, propõe que “órgãos da administração pública” sejam obrigados a “utilizarem software com código livre”.

A preferência é polêmica. Jorge Sukarie, vice-presidente do conselho da Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes), rejeita a ideia de governos darem preferência a um modelo de negócio de software em prejuízo a outro. “Não pode ser por uma questão de custo, porque pelo software aberto também se paga, só que em serviço. O governo tem que mostrar para a sociedade que ele é produtivo e eficiente e não determinar que tipo de modelo de software ele se identifica mais.”

A adoção do software livre pelas empresas é acompanhada de perto por ativistas, que recentemente ficaram furiosos com a compra de licenças da Microsoft pela Caixa Econômica Federal, até então um exemplo de uso de soluções abertas.

“Fomos contratados em 2006 para trabalhar por dois anos, o prazo se estendeu até o final de 2011 e aí decidiram abandonar tudo e comprar o Office e soluções da Microsoft”, conta Gobbi, cuja empresa, a 4Linux, foi contratada para desenvolver soluções livres para a Caixa e seus 70 mil terminais de atendimento. O valor pago à Microsoft foi de R$ 112 milhões; segundo Gobbi, todas as soluções adquiridas já haviam sido desenvolvidas pela sua equipe, que recebeu R$ 1,6 milhão pelo serviço.

Ricardo Fritsch. FOTO: OLGA PRODUÇÕES/DIVULGAÇÃO

ENTREVISTA

Ricardo Fritsch, coordenador do Fórum Internacional do Software Livre

Software livre deve ser preferência do governo?
O software é usado por sua qualidade, não importa se proprietário ou livre. Muitas empresas tentam aprisionar repartições públicas e parte da sociedade com seus produtos. Vivem de vender licença de software. Mas perdem espaço para softwares como o LibreOffice, que substitui o Office, da Microsoft. Para o governo, o importante é pensar na sua soberania. Ele tem que ter a liberdade de escolher fornecedores.

O que fazer para o software livre ser mais popular?
Ele já é muito usado. É preciso mostrar para a população onde ele está. Precisamos oferecer programas educacionais abertos que compitam com os da Microsoft. Precisamos dizer à população que um outro mundo é possível.

No futuro, programar será algo muito mais comum?
Amanhã usaremos mais software do que hoje, assim como hoje usamos mais do ontem. Se todos vão saber programar no futuro, depende de uma aliança com as escolas. É preciso colocar disciplinas de lógica de programação no ensino médio pra que as pessoas se sintam motivadas a aprender e entender o universo da programação. Tendo acesso ao código, elas conseguirão entender como funciona. Problemas futuros só serão resolvidos se a “caixinha” dos softwares estiver aberta.

*O repórter viajou a convite da organização do Fisl

FONTE

Outra lógica – Por Tatiana de Mello Dias

segunda-feira, agosto 6th, 2012

Sistemas operacionais abertos dão ao usuário mais controle sobre o computador

SÃO PAULO – Embora seja filha de um entusiasta da computação dos anos 90 e tenha me aventurado na tela preta do DOS durante parte da minha infância, meu ambiente de conforto sempre foi mesmo o Windows da Microsoft, como a maioria das pessoas. Fui criada e educada com as janelas, ícones, comandos, atalhos de teclado, além dos já clássicos programas do sistema operacional mais popular do mundo – Word, Power Point, Paintbrush, Internet Explorer. Mas veio a internet – e, com ela, o horizonte da computação pessoal ampliou-se.

Até o começo da década passada, minha fuga mais dramática dos domínios de Bill Gates havia sido impulsionada por aquela campanha que roubou comunidades do Orkut, quando descobri, quase de forma inocente, o Firefox – e, mais tarde, o Chrome e os softwares online em geral. Desde que passei a usar mais programas online do que os que precisavam ser instalados no computador, o Windows tornou-se quase um acessório – e símbolo do tempo desperdiçado toda a vez em que o computador do trabalho demorava mais de três minutos para iniciar.

(Um parênteses: os domínios digitais da Apple nunca me atraíram embora reconheça a beleza do design dos seus aparelhos e a maneira como seus usuários os amam e tornam o uso do computador mais simples e fluido. Uso Mac eventualmente, acho que ele traz inovações incríveis para os usuários, mas não sou entusiasta).

Dito isso, ao comprar um computador novo, decidi que não usaria mais Windows. Também não seria um Mac. Partiria para o Linux – no caso, direto para o Ubuntu, uma distribuição do sistema operacional bastante completa e adaptada para os usuários novatos como eu.

Liguei o computador, que veio com Windows 7, e procurei direto na web a última versão do Ubuntu. Optei pelo KDE, uma interface gráfica semelhante ao Windows (com janelas, uma versão do menu iniciar, ícones na tela e outras funções equivalentes), que roda sobre o Ubuntu. O sistema operacional é chamado de Kubuntu.
A instalação foi simples. Como em qualquer computador novo, é possível configurar o papel de parede e a aparência das aplicações. O Kubuntu também permite colocar widgets na tela inicial, por exemplo, um bloco de notas ou um relógio. A melhor parte é a velocidade: ele demora menos de cinco segundos para “acordar”, enquanto o Windows leva pelo menos 30.

E então chegou a hora de baixar os programas que eu costumo usar – como o navegador Chrome. Foi quando percebi o que é que tinha mudado. O browser padrão do Kubuntu é o Konqueror. Quando você entra em um site para fazer o download de algum programa, normalmente o browser pergunta se você quer baixar o arquivo de instalação – pelo menos era assim que eu estava acostumada. Desta vez isso não aconteceu. Ninguém perguntou nada. O botão “download” fazia o computador baixar um arquivo com nome indecifrável, que não abria e eu não conseguia rodar em nenhum lugar. Primeira missão: falhei.

Decidi começar a fuçar. Descobri que, para baixar e instalar um programa, é preciso ir a um “gerenciador de pacotes” – algo inimaginável para uma cabeça formatada pelo Windows – e procurar o pacote que se deseja baixar. Encontrei o Chrome (ainda como um arquivo com nome indecifrável, com “chrome” escrito em alguma parte dele). Você marca o programa desejado para instalação e o computador obedece. E assim a primeira barreira foi vencida.

Depois entendi a lógica: no Windows, cada programa tem o seu instalador. No Linux, você baixa os pedaços do programa e o instalador do próprio sistema realiza a instalação do programa para você.

O gerenciador de pacotes me abriu um mundo novo. É possível acessar um repositório gigante de extensões e programas direto na base do sistema. Baixei um editor de imagens. Um programa para gerenciar a webcam. O Skype. Descobri um acervo imenso de programas, extensões e versões diferentes, uma espécie de App Store menos organizada e com nomes mais estranhos.

Uma das graças do Linux é justamente essa quantidade imensa de programas. E essa maneira de baixar e instalar pacotes foi, de certa forma, uma prévia dos modelos de lojas de aplicativos que são tão comuns hoje nos sistemas da Apple e no Google, com o Chrome e Play.

Diferente. No Windows, os programas são armazenados na pasta “Arquivos de programa”. Você baixa o programa, seu instalador e alguns outros arquivos. Todos eles ficam dentro de uma mesma pasta, do próprio programa.

No Linux a lógica é diferente. Ele tem uma pasta só de programas executáveis, outra só de bibliotecas (que reúnem os conjuntos de arquivos utilizados pelos programas), e outra com os arquivos dos usuários. Ao baixar um aplicativo, seus arquivos são divididos por tipo e distribuídos na pasta correspondente no sistema – executáveis na pasta Bin, bibliotecas na pasta Lib. Assim, os arquivos ficam organizados por tipo e função, e não separados por programa. Todos os aplicativos feitos para Linux seguem essa mesma organização e se comportam de uma maneira padrão – e é isso que dá a simplicidade e a estabilidade ao sistema.

Aos usuários acostumados à organização padrão do Windows, tudo isso parece muito estranho – os programas são quebrados em arquivos de nomes e formatos aparentemente pouco amigáveis.

Por exemplo: fui gravar um CD – o programa para copiar o disco já veio instalado. Só que não conseguia de jeito nenhum converter o formato para gerar um CD de áudio. Problema, problema. Tentei, forcei, mexi. Sem sucesso. Acostumada ao padrão Windows, que dá ao usuário os recursos, mas restringe a resolução de problemas à patética Ajuda, quase desisti. Então fui procurar na web. Encontrei diversos fóruns em que os usuários davam várias resoluções para o problema – havia desde quem tivesse apenas contornado a questão até programadores que desenvolveram independentemente o conserto para aquilo. Baixei um pacote com um plugin para fazer a conversão e, em menos de cinco minutos, havia não só terminado de cumprir a tarefa, mas entendido um pouco mais sobre como o sistema funciona.

Para o usuário final o open source ainda parece algo misterioso. Nada contra os programas e sistemas que facilitam a vida das pessoas, popularizando o uso do computador e adaptando recursos a todas as idades e níveis educacionais. Mas, ao partir para um sistema de código aberto, o usuário ganha mais poder sobre o próprio computador – com uma variedade enorme de programas para instalar, de uma comunidade de pessoas dispostas a ajudá-lo com problemas, e com seu próprio entendimento de como o sistema funciona.

A mesma lógica open source que estimula programadores a escrever programas e a construir conhecimento colaborativo desde os anos 50 também chega aos usuários que resolvem experimentar esse sistema. A maior vantagem do Linux é que ele deixa os usuários menos preguiçosos – e para quem tem interesse em aprender e entender como as coisas funcionam, isso é ótimo. É só questão de prática e de hábito. Como tudo na vida.

FONTE

O software livre está no centro do avanço tecnológico – Por Alexandre Matias

segunda-feira, agosto 6th, 2012

E sua expansão está apenas no começo

Embora já exista há décadas, não faz nem dez anos que a mentalidade open source e o conceito de software livre começou a se popularizar de fato. Até o início da década passada, era bem difícil encontrar quem entendesse a lógica por trás destas ferramentas – e muito mais difícil quem as utilizasse. Mesmo os que tentavam se aventurar por este universo à parte, se não soubessem nada de programação ou computação, penavam entre códigos, interfaces e comandos.

Mas, de dez anos para cá, o que antes era uma realidade completamente diferente começou a se aproximar da que vivemos. Primeiro pelo simples fato de que o universo digital se impôs até para quem era avesso à utilização de qualquer tipo de máquina. A sensação de que “todo mundo virou nerd” (um clichê repetido como uma espécie de repulsa à onipresença digital) forçou muita gente a perder o medo do computador e entender que estas máquinas, que eram vistas por muitos como aparelhos feitos para nos controlar, são as ferramentas mais sofisticadas desenvolvidas pela espécie humana, que se caracteriza justamente pela invenção de ferramentas.

Mas isso é apenas uma parte da história. A outra está na ponta de lá, entre os entusiastas do software livre que, a partir do Linux criado há mais de vinte anos, entenderam que era preciso tornar mais intuitiva e amigável a utilização das ferramentas caso quisessem atrair mais gente para sua comunidade.
O resultado deste esforço foi a criação de sistemas operacionais menos complexos e abertos para quem nunca se dispôs a entender a parte técnica do uso de computadores. Isso não só fez mais gente encarar a novidade com menos temor (como fez a repórter Tatiana de Mello Dias, como ela mesma conta em seu relato nesta edição), como fez mais gente se dispor a aprender a programar.

No entanto, o que tem tornado o software livre e a lógica do open source mais presente e menos complexa não está nem tanto ao céu do idealismo de quem lida com estes conceitos há anos nem tanto à terra dos “novos nerds” – e sim entre este dois universos, graças à ascensão de tendências e empresas decorrentes da popularização da realidade digital deste começo de século.

Afinal, o Google é um dos principais responsáveis pela popularização deste conceito, ao trabalhar em plataformas abertas. A mesma lógica de API abertas que tornou tanto o Facebook quanto o Twitter gigantes de popularidade também veio do software livre. Até mesmo empresas fechadas como a Apple, ao criar a economia dos aplicativos, também abriu a possibilidade de mais gente tentar entender de programação.

A febre das startups talvez seja a principal tendência destes últimos anos, quando falamos de software livre. Os programadores deixaram de ser vistos como criptólogos antissociais e aos poucos passaram a ser cortejados por suas habilidades, mudando o perfil destes entusiastas e a forma como eles são encarados agora pelo mercado. Foi-se o tempo em que software livre era praticamente sinônimo de “comunista” (as aspas se referem ao tom pejorativo da crítica do passado) e hoje lidar com open source é uma credencial que gabarita muito empreendedor.

Mas esta tendência não deve parar tão cedo – e deve caminhar para um momento em que escrever programas deixe de ser uma atividade essencialmente técnica para entrar em nossa rotina. Programadores gostam de dizer que escrever código é uma arte e o auê em torno das startups já fez muita gente comemorar que a programação de software é o “novo rock’n’roll”.

Mas é questão de tempo para que a lógica não-proprietária de programação habilite cada vez mais gente para entrar neste universo e comece a pegar gosto pela linguagem e pelo assunto. E, aí sim, pode ser que veremos programas que são verdadeiras obras de arte – mesmo que não saibamos programar. Afinal, reconhecemos que alguns carros ou instrumentos musicais são ícones culturais mesmo sem entender sua parte técnica. No futuro, isso ocorrerá com os softwares também.

FONTE