Milton Friedman era o principal defensor da liberação completa das drogas, inclusive da comercialização

Written by Alessandro Moura on novembro 10th, 2011

 


Quem trabalhou a discussão da liberação da comercialização das drogas com mais lucidez foi o economista Milton Friedman, pai do liberalismo mundial, que defendia já na década de 70 a liberação completa das drogas e avisava que o mundo iria entrar em uma onda de violência jamais vista. Dito e feito.

Nesta entrevista Friedman falava justamente disso, e ainda vai mais além, quando perguntado sobre o mal causado pelo crack. Ele afirmou que a única razão desta droga existir era porque a cocaína era muito cara, e daí o crack ocupou o seu mercado.

Além de Friedman, a revista inglesa Economist foi a grande incentivadora do debate, defendendo a mesma posição. Atualmente a ONU tem alertado que é preciso abrir o debate, principalmente em função da derrota dos Estados no combate ao narcotráfico, que fez mais vítimas no mundo do que a Segunda Guerra Mundial.

Esta posição não é a favor do uso das drogas, mas é algo semelhante ao que aconteceu com a liberação do álcool. Ninguém é idiota a ponto de defender a embriaguez do cidadão, mas aprender com os erros do passado, onde a proibição do uso fez com que a criminalidade explodisse nas grandes cidades americanas, já é um bom começo.

A posição de Friedman inclusive é um bom ponto para entender que liberalismo não tem nada a ver com esquerda ou direita, mas com uma forma de ver o mundo. Os míopes ideológicos, que não enxergam um palmo além de sua “torcida política organizada”, acreditam que ser liberal é ser de direita.

Abaixo coloco uma outra entrevista de Milton Friedman sobre este assunto. Para quem não fala inglês e não conseguiu acompanhar a entrevista em vídeo, é uma boa oportunidade para saber os fortes argumentos.

 

Paige: Tratemos primeiro do problema da legalização das drogas. Como é que veria a América mudar para melhor com a aplicação desse sistema ?

Friedman: Veria a América com metade das prisões atuais, com metade do atual número de prisioneiros, com menos 10 milhares de homicídios do que aqueles que hoje existem, cidades interiores onde existiria a hipótese da gente pobre que nela residem viver sem medo do que possa acontecer às suas vidas, cidadães que poderiam ser respeitados e que hoje são viciados e que sujeitos a se tornarem criminosos de modo a conseguirem a sua droga preferida, alem de poderem ser capazes de conseguirem a mesma com a certeza de que ela não se encontra adulterada. Você sabe, a mesma coisa que aconteceu durante a proibição do álcool está a acontecer agora.

Durante a proibição do álcool, as mortes devido à ingestão excessiva de álcool, ou devido a envenenamento provocado pela sua adulteração, subiram significativamente. De forma semelhante, por efeito da proibição das drogas, verifica um incremento das mortes por overdose e devidas à ingestão de substancias adulteradas.

Paige: Na sua perspectiva, como é que a legalização poderia afectar de forma adversa a América?

Friedman: O efeito adverso que a legalização pode ter é que bastante provável que possa vir a existir mais gente a consumir as drogas atualmente ilícitas. O que não é de todo certo que tal se verifica-se. Mas se fossem legalizadas, existiria a destruição quase total do mercado negro, o preço das drogas diminuiria drasticamente. E visto como economista verifica-se que: preços baixos tendem a gerar mais procura. Mas no entanto, existem algumas qualificações muito fortes para serem feitas a este respeito. O efeito da criminalização, da construção de criminosos das drogas, é conduzir as pessoas das drogas mais suaves para as drogas mais fortes.

Paige: De que forma?

Friedman: A liamba é uma substancia muito pesada e volumosa, e por esse motivo é relativamente fácil de interditar. Os guerreiros da guerra à droga têm sido melhor sucedidos na interdição da liamba do que, por exemplo da cocaína. Deste modo os preços da liamba aumentaram e ela ficou menos acessível. Esta situação incentivou por um lado a cultura de variedades mais potentes de liamba e por outro as pessoas foram conduzidas da liamba para a heroina, a cocaína ou crack.

Paige: Vamos então considerar agora outra droga, o crack.

Friedman: Na minha opinião, o crack nunca teria existido se não existisse a proibição. Porque é que o crack foi criado? Segundo compreendo, o método preferido de consumir cocaína era a inalação através das narinas, método esse que se tornou muito caro e para alem disso, existia uma procura desesperada de uma forma de a acondicionar…

Paige: Os empresários?

Friedman: Claro, eles são empresários. As pessoas que estão a dirigir o tráfico de drogas não são diferentes de todas as outras, com exceção das seguintes diferenças: eles têm maior habilidade empresarial e menor preocupação em não prejudicar os outros. Dessa forma eles são mais irresponsáveis. Mas estão no negócio e estão a tentar obter o máximo que conseguirem. Sendo assim, descobriram que uma boa forma de fazer dinheiro era diluir o seu crack com bicarbonato de sódio ou outra coisa qualquer, queria dizer cocaína, o que quer seja que eles façam, eu não conheço o processo, de modo a que a possam vender no mercado em doses de 5 ou 10 dólares.

Paige: Falemos mais sobre isso daqui a pouco, mas com respeito ao crack, considerando o fato de ser muito viciante e considerando o fato de…

Friedman: Isso é muito dúbio. É viciante, mas com respeito ao crack o que compreendi de todas as evidencias médicas é que o crack não é mais viciante do que as outras drogas. Na realidade a droga mais viciante é o tabaco.

Paige: Bem, deixe-me refazer a pergunta. Todas as informações que tenho visto sobre ele sugerem que é uma droga que é muito agradável.

Friedman: Absolutamente. Sem duvida.

Paige: E o seu efeito é também muito curto.

Friedman: Sim.

Paige: E é muito dispendiosa porque as múltiplas doses custam muito dinheiro. A minha questão é: se as drogas fossem legalizadas e se a cocaína em forma de crack estivesse disponível a baixo custo, não poderia ser desvastante já que é tão agradável, estou a dizer que mais pessoas a poderiam obter e prolongar o seu consumo por períodos de tempo mais alongados?

Friedman: Bem, talvez. Ninguém consegue dizer com certeza o que aconteceria nessa situação. Mas eu penso que é muito dúbio que tal aconteça, porque todas as experiências recolhidas com as drogas legais indica que existe é uma tendência para as pessoas passarem das mais fortes para as mais fracas e não o contrário, assim como se progride da cerveja normal para a cerveja light. Essa é a tendência: de cigarros sem filtro para cigarros com filtro e baixo teor de alcatrão, e por ai adiante. Mas não podemos excluir que possa acontecer o que disse, mas, e este é um mas muito importante, as consequências prejudiciais do seu consumo seriam devido a várias razões muito menores que os que se verificam atualmente.

Na realidade a coisa que mais me incomoda sobre o crack não é o que está a falar, são os “bebês do crack”, porque isso é que é uma tragédia real. Eles são as vitimas inocentes. Mas se eles não escolheram ser “bebês do crack”, na verdade os que nascem com o síndrome alcoólico fetal também não o escolheram menos.

Paige: Como você sabe, em relação a isso, já vivemos numa situação com proporções epidêmicas. Posso dizer-lhe que em Maryland, um em cada quatro bebés que chegam ao hospital são viciados.

Friedman: Mas eu digo-lhe que os “bebês do crack” não são necessariamente viciados, mas têm tendência para nascer com pouco peso, com tendência para sofrer algum retardamento mental, e por ai adiante. Mas você sabe que o numero de bebês em que isso se verifica devido ao álcool é muito maior. Então o mesmo problema surge ai. E é o que me incomoda.

Debaixo das atuais circunstancias, uma mulher que é viciada em crack e está grávida tem medo de recorrer a qualquer tratamento pré-natal porque se tornaria a si própria numa criminosa, e estaria sujeita a ir para a cadeia. Agora suponha que existiria uma mudança de política, e que as drogas eram legalizadas. Com a legalização, essa inibição deixaria de existir. E você sabe que mesmo as mães viciadas em crack tem sentido de responsabilidade em relação aos filhos.

Não tenho duvidas que nessas circunstâncias seria possível ter um sistema de cuidados pré-natais muito mais eficaz, um sistema muito mais eficaz para persuadir as pessoas que consomem drogas a não ter filhos ou a não consumirem no período da gravidez e da aleitação.

Paige: Vamos voltar-nos agora para a primitiva gênese da sua crença de que as leis das drogas podem não estar a funcionar na forma como a nação tinha esperança que funcionassem. Fale-me acerca dos elementos que observou anteriormente e que mudaram a opinião ou a sua forma de pensar.

Friedman: Bem, eu não disse “mudaram”, eu diria melhor “formaram” a minha forma de pensar, já que não me lembro de alguma vez ter sido a favor da proibição quer de álcool ou de drogas. Eu cresci, sou suficientemente velho para ter vivido uma parte do período da proibição.

Paige: E lembra-se dele?

Friedman: Eu lembro-me de uma ocasião em que um sujeito da Suécia, estudante na Universidade de Columbia quis levar-me à um restaurante para comer uma refeição sueca e deu-me a conhecer uma bebida sueca chamada aquavit. Este restaurante era o mesmo em que o sujeito consegui o aquavit durante a proibição; eles vendiam-no a ele. E isto logo após a abolição da proibição. Nós fomos lá e ele pediu-lhes algum aquavit. Eles disseram. “Oh, não, nós ainda não temos a nossa licença”. Numa ultima tentativa ele falou com eles em sueco e convenceu-os a levar-nos às traseiras onde nos deram um copo de aquavit. Agora isto mostra o absurdo que era a proibição.

A proibição foi abolida em 1933 quando tinha 21 anos de idade, pelo que durante a proibição era um teenager. O álcool estava facilmente disponível. O contrabando era comum. Qualquer idéia de que a proibição estava a impedir as pessoas de o consumir era absurda. Existiam denuncias (Speakeasies) por todo o lado. Mas mais que isso. Tínhamos o espectáculo do Al Capone, das extorsões, das guerras dos gangs…

Qualquer pessoa com dois olhos poderia ver que a proibição era um mau negócio, que produzia mais malefícios que benefícios. Para além disso, tornei-me economista. E enquanto economista, vim a reconhecer a importância dos mercados, da livre escolha e da supremacia dos consumidores, e vim a descobrir o dano que é causado quando se interfere com eles. As leis contra as drogas foram instauradas em 1914, mas na altura não existiu um grande esforço na sua aplicação.

Paige: Esse era o Decreto Harrinson?

Friedman: O Decreto Harrinson. Não existiu um grande esforço na sua aplicação até ao fim da segunda guerra mundial, por essa altura já era capaz de ver os efeitos maléficos do controlo de preços, do controlo das rendas, ou de outras tentativas para o governo interferir no campo do mercado. Por mim, nunca me ocorreu ser a favor.

Paige: Existiu algum acontecimento especifico, qualquer coisa que acontecesse ter observado e que o impressionou ou foi…

Friedman: Não, não existiu nenhum acontecimento único. Foi um efeito cumulativo.

Paige: Claro, você sabe que existem pessoas que dizem que quando a proibição acabou, o consumo aumentou dramaticamente e que isso poderia ser…

Friedman: peço perdão, isso simplesmente não é verdade. Isso não é um fato. O que é verdade…

Paige: Tem sido argumentado. É o que tem sido argumentado.

Friedman: Em vários livros com registos estatísticos, você tem números sobre as quantidades de álcool consumidas. Logo após a proibição elas subiram significativamente, mas esse era um consumo ilícito de álcool. Se tomar, assim como eu fiz, o gráfico do consumo de álcool antes e depois da proibição, verifica que o consumo de álcool voltou de novo para valores aproximados aos anteriores à proibição, e, desde então até a agora, se aconteceu alguma coisa foi que o consumo de álcool tem descido não em termos absolutos, mas relativamente à população e relativamente ao aumento de rendimentos.

Durante um tempo, aumentou lentamente, em sincronia com o rendimento, com uma exceção. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele aumentou vertiginosamente. Mas isso foi o que aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial. Claro está, que nunca teria existido a proibição se você não tivesse todos jovens ausentes na França na altura em que a votação foi feita, e então as mulheres tiveram uma influencia extraordinária nela. E então após a segunda guerra mundial, ele voltou a descer outra vez. E mais recentemente, o consumo de álcool tem vindo a descer numa base per capita. Pelo que simplesmente não é verdade que tenha existido um aumento tremendo.

Friedman: No que respeita às drogas, alguns anos atrás, o Alaska legalizou a liamba. O consumo de liamba entre os estudantes do liceu diminuiu. Na Holanda, o governo não leva a tribunal as drogas leves, como a liamba, e preferiam fazer o mesmo em relação às drogas duras, mas eles sentem-se impelidos a isso pelas obrigações internacionais a que aderiram, e diminuiu o consumo de liamba pelos jovens. E mais interessante, é que a idade média dos consumidores de drogas duras subiu, o que significa que não estão a fazer novos recrutas.
Então as evidencias estão muito confusas. Mas tenho que admitir que uma das características negativas de legalizar as drogas é que podem vir a existir alguns hábitos adicionais de consumo de drogas. Contudo, quero qualificar que eles já existem de qualquer outra forma.
Uma criança que é morta num tiroteio num gueto, num tiroteio aleatório, é uma vitima inocente em todos os sentidos. O indivíduo que decide tomar drogas por ele próprio não é uma vitima inocente. Ele escolheu por si próprio ser vitima. E tenho que dizer que tenho muito menos simpatia por ele. Não penso que seja moral impor custos tão elevados a terceiros para os proteger das suas próprias escolhas.

Paige: Para que compreendamos as raízes reais dessas ideias, que tal se falasse-mos um minuto acerca da perspectiva econômica do mercado livre, e de qual considera ser o devido papel do governo na sua interação com os indivíduos.

O devido papel do governo é exactamente aquele que foi enunciado em “Sobre a Liberdade” por John Stuart Mill em meados do século passado. O devido papel do governo é prevenir que terceiros prejudiquem um indivíduo. O governo, disse ele, nunca teve qualquer direito para interferir com o indivíduo para o próprio bem do indivíduo. O caso da proibição das drogas é exatamente tão fraco ou tão forte como o caso de proibir as pessoas de comerem demais.
Todos nós sabemos que comer de mais é a causa de um maior número de mortes do que as provocadas pelas drogas. Se for por principio correto para o governo dizer que não podemos consumir drogas porque elas nos fazem mal, porque é que não está de todo correto impedir-nos de comer de mais porque isso nos faz mal? Porque é que não está correto dizer que não podemos experimentar praticar skydiving porque é provável que se morra? Porque é que não está correto dizer. “Oh, esquiar, isso não é bom, é um desporto muito perigoso, você vai magoar-se a si mesmo”? Onde é que se desenha a linha?

Paige: Bem, eu poderia apostar que o antigo Czar da droga, William Bennet, assim como outros da mesma linha, provavelmente sugeriam que a presente venda e distribuição de drogas ilegais é de fato uma empresa que prejudica outra pessoa e o governo tem de se intrometer..

Friedman: (simultaneamente) Prejudica bastantes..

Paige: ..para proteger os vulneráveis

Friedman: Prejudica muitas outras pessoas, fundamentalmente por ser proibido. Existe atualmente um enorme número dessas vitimas inocentes. Você tem as pessoas que vêm os seus haveres roubados, as que são agredidas pelas que tentam arranjar dinheiro suficiente para o próximo chuto. Você tem as pessoas que são mortas na aleatória guerra à droga. Você tem a corrupção do sistema legal. Você tem as vitimas inocentes que são os que pagam impostos, e que têm que pagar para que existam cada vez mais prisões, e para cada vez mais prisioneiros, e para cada vez mais policias. Você tem-nos a nós e a outros como nós que não obtêm uma aplicação decente da lei, porque os agentes da autoridade andam ocupados a tentar o impossível.
E por ultimo, se bem que não menos importante, você tem as pessoas da Colômbia, do Peru, e por ai fora. Que interesse é que nós temos ao destruir e levar à matança de milhares de pessoas na Colômbia apenas porque não conseguimos aplicar as nossas próprias leis? Se conseguisse-mos aplicar as nossas leis contra as drogas, não existiria mercado para essas drogas. Você não teria a Colômbia no estado que está.

Paige: Não é verdade que toda a discussão aqui, todo o problema da droga é um problema econômico para..

Friedman: Não, não é um problema econômico, é um problema moral.

Paige: De que forma?

Friedman: Eu sou um economista, mas o problema econômico é terciário. É um problema moral. É o problema dos malefícios que o governo faz.

Estimei estatisticamente que a proibição das drogas produz em média 10.000 homicídios por ano. O governo andar para ai a matar 10.000 pessoas é um problema moral. Que o governo transforme indivíduos que podem estar a fazer algo que você e eu não aprovamos, mas que não prejudica mais ninguém, em criminosos, é um problema moral. A maior parte das detenções por drogas são entre consumidores ocasionais que são acusados de posse.

Suponhamos que está aqui agora alguém que quer fumar um cigarro de liamba. Se for apanhado vai para a prisão. Será isso moral? Eu penso que é completamente repugnante que o governo, que será supostamente o nosso governo, possa ter uma atitude que converte em criminosos pessoas que não estão a prejudicar as outras, numa atitude que destroi as suas vidas colocando-as na prisão. Isso é que é um problema para mim. Os aspectos econômicos apenas surgem para explicar porque é que tem estes resultados. Mas as razões econômicas não são as razões do anti-proibicionismo.

Claro que gastamos dinheiro na proibição. Dez, vinte, trinta biliões de dolares por ano, mas isso é trivial. Estamos a gastar tanto dinheiro em muitas outras formas, como por exemplo comprando colheitas que nunca seriam produzidas.

Paige: Existem muitos que olhariam para a economia – como é que a economia do negócio da droga está a afetar as maiores cidades do interior, por exemplo.

Friedman: Claro que está, e está porque é proibida. Vê, se você observar a guerra à droga de uma perspectiva puramente econômica, o papel do governo é proteger o cartel da droga. O que é literalmente verdade.

Paige: E nesse caso está a fazer um bom trabalho?

Friedman: Excelente. O que quero dizer com isto. Num mercado livre normal — por exemplo considere batatas, bifes, qualquer coisa que queira – existem milhares de importadores e exportadores. Qualquer pessoa pode entrar no negócio. Mas é muito difícil para uma única pessoa entrar no negocio da importação de drogas já que os esforços de interdição tornam-na imensamente onerosa e difícil. Então, os únicos que conseguem sobreviver nesse negócio são do tipos dos grandes cartéis de Medellin, os quais tem dinheiro suficiente, pelo que podem ter frotas de aviões assim como podem ter métodos sofisticados, e por ai fora.
Para alem disso, ao manter essas mercadorias no exterior, e prendendo, por exemplo, os produtores locais de liamba, o governo mantêm elevados os preços desses produtos. O que poderia quer mais um monopolista? Ele tem um governo que torna a vida muito difícil aos seus competidores e mantém o preço dos seus produtos elevados. Para ele é céu absoluto.

Paige: Claro que você sabe da existência de defensores das teorias da conspiração, as quais sugerem que a proibição continua a existir por uma razão, ou seja porque os nossos governos estão a colaborar com os traficantes; você não diria isso .

Friedman: Não, não é. Não diria isso de modo nenhum. Você sabe que sucede de forma repetida que as políticas do governo, cheias de boas intenções acabam por correr mal e serem prejudiciais. A razão que faz com que as boas intenções dêem maus resultados é que os políticos gastam o dinheiro dos outros.

Paige: Muitos poderiam dizer que muitas das suas teorias são baseada na noção de interesse pessoal; se algo for do interesse pessoal para uma pessoa, ele ou ela o fará.

Friedman: Isso não é uma teoria e não existe ninguém que o negue. Será que existe alguém que negue que se pode esperar que todos persigam o seus próprios interesses pessoais? Agora esses interesses pessoais não têm de ser reduzidos. A Madre Teresa persegue o seu próprio interesse tanto quanto o Donald Trump persegue o seu. São interesses diferentes, mas ambos perseguem o seu interesse pessoal.

Paige: Algumas pessoas podem dizer que essa noção – que o interesse pessoal é o que impulsiona a sociedade assim como os indivíduos – e uma filosofia sem coração e que as classes mais desfavorecidas não se saem bem com esse tipo de noção. Já ouviu isto anteriormente.

Friedman: Sim claro. Mas as evidências são tão esmagadoras. Os únicos países do mundo em que os indivíduos das classes com baixos rendimentos conseguiram um meio caminho para o nível de vida decente são aqueles que dependem de mercados capitalistas. Compare apenas a qualidade e o nível de vida das pessoas normais na Rússia e das pessoas, já não diria dos EUA, mas da França, Itália, Alemanha, Inglaterra, ou de Hong-Kong. Compare Hong-Kong com a China continental.

Todas as sociedades são conduzidas pelo interesse pessoal. A China é conduzida pelo interesse pessoal. A questão é: como é que o interesse pessoal é disciplinado? Se a única forma de você satisfazer o seu interesse pessoal for conseguindo algo pelo qual os outros lhe paguem. Então você tem de…

Paige: Ou apontando uma pistola à nuca de alguém. Suponho eu.

Friedman: se o puder fazer.

Paige: Num caso extremo.

Friedman: Numa situação extrema. Mas isso não consegue a sua cooperação. Você pode ser capaz de os matar. Você pode ser capaz de lhes tirar os seus bens. Mas isso não irá criar maior prosperidade. Então as únicas sociedades que tem sido capazes de criar uma base relativamente alargada de prosperidade têm sido aqueles que dependem fundamentalmente de mercados capitalistas. Isto é verdade quer você tome Hong-Kong versus a China continental, Alemanha de Leste versus Alemanha Federal, a Checoslováquia antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Você não consegue encontrar uma única exceção a esta preposição.

Adam Smith definiu-a da melhor forma à duzentos anos atrás, quando disse que as pessoas que procuram os seus próprios interesses são conduzidas por uma mão invisível na promoção do interesse público mesmo que isso não faça parte das suas intenções. O Sr. Ford não desenvolveu o seu carro a pensar no interesse publico. Ele desenvolveu por interesse próprio.

Paige: Mas Adam Smith também apontou um papel para o governo, por exemplo a administração de justiça. Não foi?

Friedman: Assim como eu. Não sou uma pessoa defensor da ausência de governo. Penso que existe um papel real para o governo e uma das razões pela qual coloco tantas objecções a tantas das coisas em que o governo se meteu é porque estas o impedem de desempenhar o seu devido papel. Um papel básico do governo é protege-lo, a si e aos outros cidadãos, de ver a sua casa assaltada e de protege-lo de agressões físicas. E devido a uma grande parte da nossa máquina de aplicação da lei estar devotada à guerra à droga, você não tem esse tipo de segurança.

Paige: Mas é claro que existe o argumento de que se a policia prender um viciado em droga que não tenha dinheiro para comprar essa droga, eles estão também a retirar das ruas um potencial ladrão que poderia assaltar a minha casa. Certo?

Friedman: Eles são potenciais ladrões, mas como você sabe depressa virão mais para os substituir, e para além disso o que é que voce vai fazer com eles. Vai encarcera-los? A maioria das pessoas são presas são por simples posse, eles são consumidores ocasionais.

Paige: Contudo, uma senhora de sessenta e cinco ou setenta e cinco anos que olhe pela sua janela e veja traficantes de droga na sua rua, e os veja na posse de armas e a vender drogas a trinta metros da sua porta, tem o direito de chamar a policia e de dizer: “Quero esta gente fora daqui.”

Friedman: Absolutamente.

Paige: E a policia deve retira-los da rua. Correto?

Friedman: Absolutamente. Mas a existência de uma lei que faça disso a principal função da policia é um erro. Eu não culpo a policia. Eu não culpo essa mulher. Eu não culpo os traficantes de droga.

Paige: De que forma?

Friedman: Nós colocamo-los numa posição em que é o que têm a fazer. Quando dizemos a um jovem de um guetto: “Olha, tu arranjas um emprego razoável no McDonald’s ou em qualquer outro lugar, e ganharás cinco, seis, ou sete dólares por hora. Mas por outro lado, existe a oportunidade de distribuir drogas na rua.” Porque que é que os jovens têm essa oportunidade? Porque a lei é mais benevolente com os jovens do que com os adultos.

Paige: Como é que você vê os efeitos da legalização sobre os pobres deste pais

Friedman: Os pobres? Isso depende de que pobres. Mas no geral, a simples legalização não teria um efeito significativo nos pobres. Ela poderia permitir melhores oportunidades aos pobres ao transformar as cidades interioranas em locais mais seguros nos quais possam empreender negócios decentes e lucrativos. Poderia fornecer uma oportunidade para melhorar a escolaridade. A deterioração da escolaridade, que é outro caso da ineficácia do socialismo, tem tal como as drogas muito a ver com os problemas das cidades interioranas. As drogas não são o único fator interveniente.

Mas eu não acredito que a legalização deva ser fundamentalmente encarada como uma forma de ajudar os pobres. A legalização é uma forma de impedir – no nosso forum enquanto cidadãos – o governo de continuar a utilizar o nosso poder para manter o comportamento imoral de assassinar pessoas, roubando vidas a pessoas dos Estados Unidos, da Colômbia e de todos os outros lugares, coisa que não temos o direito de fazer.

Paige: Então você vê o papel atual do governo, como sendo tão mortífero como se o Tio Sam andasse a disparar contra as pessoas .

Friedman: Claro, é o que ele está a fazer. E atualmente o Tio Sam não está apenas a disparar contra as pessoas, ele está a retirar-lhes as suas propriedades sem qualquer procedimento legal. Os agentes da repressão das drogas estão a expropriar os bens, muitas vezes de pessoas inocentes para as quais não têm mandato real. Eles estão a transformar os cidadãos em espiões e informadores. O governo diz às pessoas para elas fazerem denuncias telefônicas, sem sequer se identificarem, mas apenas para informarem as suas suspeitas. È uma forma horrível para conduzir o que é supostamente um pais livre.

Paige: Nestes últimos poucos minutos vamo-nos voltar especificamente para a sua visão. Segundo o seu sistema, se você pudesse fazer um desejo e ele se realizasse, que sistema seria? Como é que legalizaria as drogas? Como é que iria fazer tal coisa?

Friedman: Eu legalizaria as drogas submetendo-as exatamente às mesmas regras que o álcool e o tabaco são atualmente sujeitos. O álcool e o tabaco causam pelo seu consumo um numero muito maior de mortes que as drogas, mas no entanto causam muito menos vitimas inocentes. E as principais vitimas inocentes, são nesse caso as pessoas que são mortas pelos condutores embriagados. Deveríamos aplicar a lei contra a condução sobre o efeito do álcool, tanto quanto deveríamos aplicar a lei contra a condução sobre a influencias de marijuana, cocaína ou qualquer outra.
Mas num primeiro passo, trataria as drogas da mesma forma que agora tratamos do álcool e do tabaco, e não de forma diferente.

Paige: Você sabe o que é que o deputado Charles Rangel (Nova Iorque) diria?

Friedman: Já ouvi o Charles Rangel. Ele é um demagogo, que não tem qualquer relação entre o que diz e os interesses reais dos seus constituintes. Os seus constituintes, as pessoas que ele serve, estão entre as pessoas que mais beneficiariam com a legalização das drogas. Mas ele prefere dizer-lhe o que eles gostam de ouvir, e não o que eles realmente necessitavam de ouvir.

Paige: Perdoe-me por lhe lançar um nome, mas eu apenas quis mencionar uma resposta típica ao que seria se tratasse as drogas como o álcool, você está a falar de anúncios de página inteira à cocaína. Está a falar sobre anúncios na televisão. Você está a falar acerca de comprar cocaína…

Friedman: Peço perdão. Atualmente os anúncios ao álcool na televisão são proibidos.

Paige: Apenas para as bebidas brancas.

Friedman: Para as bebidas destiladas. E eu disse que tratava da mesma forma que tratava o álcool pelo que presumivelmente esses anúncios eram proibidos. Mas claro, em qualquer situação nunca proibiria ninguém de ler o que escreve o Sr. Rangel, e as suas ideias são pelo menos tão perigosas como esses anúncios de página inteira que falou.

Paige: O que é que mais o amedronta na noção das drogas serem legais

Friedman: Nada me amedronta na noção das drogas serem legais.

Paige: Nada.

Friedman: O que me amedronta é a noção de continuarmos no caminho em que estamos agora, e que destruirá a sociedade livre, transformando-a num local não civilizado. Atualmente apenas existe uma forma de realmente aplicar as leis anti-droga. A única forma é adotar as políticas da Arábia Saudita ou de Singapura, que já alguns outros países adotaram, e nas quais os toxicodependentes estão sujeitos à pena capital, ou no mínimo, a verem uma das suas mãos amputadas. Se desejarmos ter este tipo de punições… Mas será que essa seria uma sociedade onde desejaríamos viver?

Paige: Essas noções parecem-lhe obvias?

Friedman: Sim. Tenho pensado nisto à muito tempo. Desde há muito tempo que tenho observado o comportamento neste país e nos outros. E eu verifiquei que praticamente incrível como é que as pessoas conseguem apoiar o atual sistema. Este sistema traz muito mais malefícios que benefícios.

Paige: Se é obvio, porque é que você está incluído numa minoria, particularmente entre…?

Friedman: Claro. Essa é uma boa questão. E a resposta, é que existem demasiados interesses associados, interesses que se construíram em torno da atual guerra à droga. Quais são as pessoas que se interessam pelas drogas? As pessoas que têm a obrigação de aplicar as leis da droga. Eles pensam que estão a fazer o que está certo. Eles são bons seres humanos. Todos pensam que o que estão a fazer tem algum valor. Ninguém o faz por maus motivos. Mas isto é a mesma coisa por todo o governo.

Paige: Concorda que o medo é um dos maiores fundamento para as atuais leis da droga. O medo de que sem elas o mundo se desmorone.

Friedman: Sim. Mas é um medo falso, que é promovido. Ouça o que disse o antigo czar da droga, o Sr. Bennet. Primeiro que tudo, ele afirmou que o consumo de álcool após o fim da proibição subiu qualquer coisa como três ou quatro vezes mais. Ele está errado. Fatualmente errado. Ele teve todos os tipos de conversa apavorantes sobre quantos novos dependentes existiriam. Ele nunca forneceu uma única evidência, nunca forneceu nenhum exemplo sobre qualquer outro local ou situação. Mas porque? Porque ele tem um trabalho a fazer.

Paige: Interesses associados, dizia você.

Friedman: Interesses associados, o interesse proprio, o mesmo interesse pessoal que se vislumbra no mercado. Mas no mercado, se você iniciar um projeto e ele correr mal, terá de o financiar do seu próprio bolso.

Paige: Ultima questão. Você têm netos?

Friedman: Absolutamente.

Paige: Você tem uma neta com dois anos.

Friedman: Sim.

Paige: E como é o seu nome?

Friedman: Ela chama-se Becca

Paige: Quando você observa a Becca, o que é que você vislumbra para ela e para o seu futuro?

Friedman: Isso depende inteiramente do que você e os seus concidadãos fizerem ao nosso país. Se você e os seus concidadãos continuarem a dirigirem-se cada vez mais na direção do socialismo, não apenas através da inspiração da vossa proibição da droga, mas também pela vossa socialização das escolas, da socialização da medicina, da regulação industrial, eu vislumbro para a minha neta algo semelhante ao comunismo soviético de à três anos atrás.

 

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