FISL encerra com um legado de conhecimento e muitos desafios pela frentes

Written by Alessandro Moura on maio 12th, 2014
fisl16

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Consagrado como um dos maiores eventos de Software Livre do mundo, o Fórum Internacional Software Livre (FISL) encerrou sua 15ª edição neste sábado (10/05). Nos quatro dias de evento, que iniciou na quarta-feira (07/05), 6.017 pessoas participaram de diferentes palestras e oficinas.

O evento mostrou que a tecnologia baseada em compartilhamento de conhecimento pode estar à serviço da cidadania, seja através de software, hardwares, redes, internet, educação, energia e cultura digital.

Segundo balanço da organização do FISL foram 388 palestras que totalizaram 508 horas. O coordenador geral do FISL15, Ricardo Fritsch destacou a grande participação de público e a alta qualidade das palestras e paineis apresentados.

– O que todos queremos é a tecnologia que liberta, ou seja, meios que nos permitem compartilhar, viver e exercer a cidadania de forma colaborativa na qual todos saem ganhando – afirmou.

O evento contou com a participação de 23 patrocinadores, 58 expositores e 16 Grupos de Usuários.

A caravana com o maior número de participantes do Rio Grande do Sul foi a UFSM – CAFW (Frederico Westphalen), com 108 participantes.

A caravana com o maior número de participantes de fora do Rio Grande do Sul foi do SENAI Jaraguá do Sul (SC) com 50 presentes.

A caravana mais distante foi IFRN PDF, da cidade de Pau de Ferros, no Rio Grande do Norte com 19 participantes.

O destaque na participação internacional ficou por conta dos Estados Unidos com 21 presentes. A segunda maior representação de fora do país foi o Uruguai com 16, seguido de Argentina com 9 e México com 8. O evento teve ainda participações de França, Canada, Alemanha, Paraguai, Venezuela, Holanda , Suíça, Bélgica, Dinamarca, Equador, Índia, Itália, Peru, Portugal, Rússia e Reino Unido.

Dentro do Brasil, o maior número de visitantes foi do Rio Grande do Sul (1909) seguido de Santa Catarina (646), Paraná (185), Distrito Federal (129), Rio de Janeiro (129), São Paulo (116), Bahia (69), Espirito Santo (67), Rio Grande do Norte (45) e Minas Gerais (29). Também houve participação de representantes do Pará, Goiás, Tocantis, Ceará, Mato Grosso, Rondônia, Roraima, Alagoas, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Paraíba e Pernambuco

Dados de Internet durante os 4 dias de evento

  • Pico de download alcançado: 180 Mbps (Mega bits por segundo)
  • Total de dados trafegados com a Internet: 1,75 Tera bytes sendo 20% em IPv6
  • Número de urls diferentes requisitadas: 181000
  • Número de salas com streaming: 7
  • Número de visualizações de palestras online pela TV Software Livre: 60177 hits
  • Número de hits da rádio Software Livre: 20392 hits
  • Número de horas de palestras gravadas e transmitidas: 250h
  • Quantidade de dados de streaming gravados: 18GB (Giga bytes)
  • Quantidade de dados de streaming transmitidos para a Internet: 400GB (Giga bytes)

É possível assegurar a privacidade na Internet?

A pergunta norteou muitas palestras e oficinas da 15ª edição do Fórum Internacional Software Livre e foi o destaque dos quatro dias de evento. A recente aprovação do Marco Civil da Internet rendeu muitos debates sobre o futuro do tema no país. Uma certeza rondou as conversas ao longo dos dias: o Brasil está fazendo história com a nova regulação.

– Enquanto a maioria dos países está aprovando leis que criminalizam a prática cotidiana das pessoas na Internet, leis que inclusive querem aumentar o controle e o bloqueio da Internet, o Brasil foi numa outra direção. Aprovou uma lei para garantir a liberdade de uso e a liberdade de expressão e de criação. O coração dessa lei é a defesa da neutralidade da rede – destacou o professor da Universidade Federal e ativista do Marco Civil na Internet, Sérgio Amadeu.

As vitórias e as derrotas do processo de aprovação do Marco Civil esteve em pauta durante o FISL. De acordo com a palestrante Maria Melo, ativista que defendeu a aprovação do Marco Civil da Internet, a legislação foi uma garantia da democracia e liberdade para todos os cidadãos, mas o momento não é de relaxar.

– Temos uma série de desafios pela frente. Precisamos manter a sociedade civil unida e atenta porque depois de aprovado e sancionado ainda temos questões que precisam ser regulamentadas e isso vai ser feito através de consulta pública. O fundamental é destacar sempre que não se trata de um projeto de governo e sim uma ação que é feita e direcionada para toda população – disse.

Também ativista da aprovação, Marcelo Branco participou da elaboração inicial da ideia, quando ainda não se falava em regulação da internet no Brasil. Porém, ele acredita que alguns pontos devem ser observados e alterados para evitar contradição.

– O ponto que não ficou como nós gostaríamos, e que nós queríamos que tivesse sido vetado, é o artigo 15ø. Ele obriga a guarda de conteúdo pelas corporações. Dependendo da regulamentação, que estamos lutando agora, pode ser contraditório com o discurso da presidenta Dilma Rousseff e da luta da defesa da privacidade dos usuários da rede. Possibilitaria uma vigilância em massa dos brasileiros. Estamos mobilizados para neutralizar os efeitos nocivos desse artigo – afirmou Marcelo Branco.

Em decorrência dos fatos anunciados por Edward Snowden, quando tornou público detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global da NSA americana, somada a recente instauração do Marco Civil da Internet no Brasil, o FISL tinha motivos de sobra para ser alvo de muito debate entre os participantes. As teses contemplaram, inclusive, os reais objetivos de Snowden ao divulgar as primeiras informações sobre a espionagem americana.

– Fica difícil entender porque Snowden ainda está vivo, depois de ter feito isso. Demorou dez dias para o Governo dos Estados Unidos reagir, e quando isso aconteceu, foi por meio de um relatório mau preenchido pedindo a deportação de Snowden de Hong Kong. Há muita coisa mal explicada na história. Para mim, se encaixa melhor a tese que se trataria da parte essencial de um projeto totalitário, que busca acostumar o povo a este problema, em busca de um cerco verdadeiro e feroz contra a liberdade de expressão na internet que pode ocorrer em breve – considera o professor de Ciências da Computação da Universidade de Brasília, Pedro Rezende.

Até mesmo o termo publicado pela grande mídia e atribuído as atividades dos Estados Unidos foi tema de discussão. O uso da palavra “espionagem” foi contestado.

– Eu distinguo bastante o termo “espionagem” de “vigilantismo”. A espionagem sempre existiu como uma atividade militar, que busca levantar informações sobre um alvo específico. O vigilantismo é a instrumentação do poder para obter o controle social. É atacar agora, para filtrar os dados conforme a necessidade futura. É muito mais sério do que espionagem – aponta Rezende.

De acordo com co-fundador do grupo de advogados defensores dos direitos fundamentais dos cidadãos e da liberdade online, La Quadrature du Net, Jérémie Zimmermann, crescemos em meio a máquinas que eram “amigas” e estavam a serviço dos homens. Atualmente, este relacionamento está invertido.

– Eu tinha um computador da Atari que descriminava cada microchip em seu Manual de Instruções. Se você tivesse a paciência e o ‘nerdismo’ para ler tudo, podia ter o conhecimento sobre todo seu funcionamento. Hoje, possuímos máquinas que são inimigas, que não podemos nem remover as baterias e contém diversos chips que não sabemos para que servem – aponta Jérémie.

Segundo um dos mais antigos funcionários da organização sem fins lucrativos que visa proteger a liberdade de expressão, Eletronic Frontier Foundation, Seth David Schoen, é importante repensar as limitações do Software Livre, pensando não apenas no seu potencial.

– Estamos no FISL falando sobre a era da espionagem. Seria interessante não somente pensar sobre a potencialidade que temos nas mãos, mas sobre o que podemos alcançar na prática atualmente. Não foi hoje que começou a era de espionagem, mas o uso dos equipamentos aumentou tanto, que podemos estar sendo escutados por alguém de fora por meio de um celular ou uma brecha na rede – revela Schoen.

Educação foi destaque no FISL

Um dos destaques do FISL15 foi um local dedicado aos apaixonados pelas técnologias da robótica. De acordo com o coordenador do Espaço Robótica, Eloir J. Rockenbach, o evento deste ano atendeu às expectativas do grande público e a perspectiva é que o estande aumente para as próximas edições.

– O Espaço da Robótica desse ano foi fantástico. Atendemos a expectativa do público e observamos que o local estava sempre com lotação máxima e me deixa muito alegre. Dá uma sensação de alívio e de missão cumprida. Para 2015, queremos que esse espaço siga trazendo novas metodologias e trabalhando a robótica livre – ressaltou Eloir J. Rockenbach.

Integrando educação e software livre, o Espaço Paulo Freire apresentou muita procura por professores que, desde o ensino fundamental até a faculdade, querem levar inovações do FISL para as salas de aula. Segundo a coordenadora do Espaço Paulo Freire, Cllarica Lima, os professores demonstraram o desejo e a necessidade de participar do movimento software livre.

– O espaço sempre foi muito bem sucedido no FISL, mas esse ano foi uma explosão muito boa. Houve momentos em que precisamos abrimos um estande extra para que mais pessoas pudessem acompanhar as palestras. Esse ano nós tivemos transmissão pela rádio pois a demanda foi muito intensa. Eu explico o sucesso pelo fato de ser um espaço elaborado por professores para outros professores – garantiu Cllarica Lima

Papa do Linux esteve entre nós

Uma das maiores autoridades mundiais em Software Livre, Jon “Maddog” Hall, que palestrou no evento destacou a importância para os jovens da implantação da política de códigos abertos na internet.

– Existem muitos estudantes aqui presentes e eles, por exemplo, adorariam estar trabalhando desenvolvendo melhorias em um software. O avanço do software livre na comparação com o software proprietário é esse, porque eles conseguem ver um código-fonte, arrumar, trabalhar e encontrar, assim como experts no assunto, oferecer novas possibilidades. Quando se tem um problema num programa de grandes empresas, por exemplo, eles jamais conseguirão fazer algo – disse.

O palestrante ilustrou uma curiosa situação bem humorada vivida em um dos grandes eventos internacionais perguntando: Quantos de vocês já tiveram algum problema com software proprietário?

– De 4 mil pessoas que estavam presentes 3.999 levantaram a mão dizendo sim. O único que não levantou a mão estava dormindo – disse.

Interatividade presente no FISL

Uma das novidades desse ano no FISL foi a plataforma Tela Social – uma solução em sinalização digital, totalmente desenvolvida em software livre As tradicionais programações impressas foram totalmente substituídas pela tecnologia, que, além de ser ambientalmente correta, ainda possibilita uma comunicação mais interativa e criativa com os participantes do evento.

A Tela Social é utilizada pelo Fisl desde 2011 e, nesta edição, está ainda mais dinâmica e interativa. São cinco TVs que exibiram a grade de palestras, sendo que três delas ainda contam com a integração das redes sociais Twitter e Instagram. Todas as fotos e mensagens postadas nas duas redes, com a hastag “fisl15”, são automaticamente exibidas nas telas, despertando o interesse em colaborar com o projeto.

Fotos! Fotos! E mais fotos!

 

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